Estudo conclui que beber menos após o diagnóstico de cancro da mama não reduziu a mortalidade

Investigadores acompanharam 1 558 mulheres pós-menopáusicas numa análise observacional centrada na sobrevivência após o diagnóstico, e não no risco de cancro

sábado, 24 de outubro de 2026

Partilhe!

Um estudo de coorte com 1 558 mulheres pós-menopáusicas diagnosticadas com cancro da mama concluiu que reduzir o consumo de álcool ou deixar de beber após o diagnóstico não estava associado a uma diminuição da mortalidade por todas as causas, segundo uma investigação publicada na revista Breast Cancer Research and Treatment.

O estudo contribui para uma área complexa da investigação oncológica, que suscita frequentemente questões práticas por parte das doentes após o diagnóstico. Muitas mulheres são informadas, corretamente, de que o álcool é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de cancro da mama. Menos claro era saber se alterar os hábitos de consumo após o diagnóstico afeta a sobrevivência. Nesta análise, os investigadores não encontraram indícios de que as mulheres que reduziram ou deixaram de consumir álcool tivessem uma sobrevivência global superior à daquelas cujo consumo não diminuiu.

O artigo centrou-se na mortalidade por todas as causas, uma medida que contabiliza mortes por qualquer motivo, e não apenas as causadas pelo cancro da mama. Este aspeto é importante porque as mulheres tratadas por cancro da mama podem vir a morrer de diversos problemas de saúde, incluindo doenças cardiovasculares, outros tipos de cancro ou problemas sem relação com a doença. Uma conclusão sobre a mortalidade por todas as causas não significa necessariamente que o álcool não tenha qualquer efeito na progressão do próprio cancro da mama.

Os investigadores também alertaram para que o resultado não seja interpretado como prova de que é seguro consumir álcool após um diagnóstico de cancro da mama. O estudo foi observacional, o que significa que acompanhou padrões num grupo de mulheres, em vez de testar o consumo de álcool num ensaio aleatorizado. Neste tipo de investigação, as diferenças entre os grupos podem influenciar os resultados de formas difíceis de avaliar por completo. As mulheres podem reduzir ou deixar de beber por se sentirem mal, por terem outros problemas de saúde ou por receberem recomendações relacionadas com o tratamento ou com a toma de medicamentos. Estes e outros fatores podem dificultar a identificação de uma relação direta entre alterações no consumo de álcool e a sobrevivência.

Esta ressalva é fundamental para interpretar o estudo. A ausência de um efeito observável numa coorte observacional não elimina as evidências mais amplas que associam o consumo de álcool ao risco de cancro da mama. Em vez disso, sugere que, neste conjunto de dados, entre mulheres pós-menopáusicas que já tinham cancro da mama, uma alteração no consumo de álcool declarado após o diagnóstico não estava associada a uma diferença mensurável na mortalidade global.

É provável que o estudo desperte interesse para além da oncologia, uma vez que o debate público sobre álcool e cancro tende a juntar duas questões distintas. A primeira é se o consumo de álcool aumenta a probabilidade de desenvolver cancro da mama. A segunda é se alterar os hábitos de consumo após o diagnóstico afeta a sobrevivência. Esta investigação aborda a segunda questão, não a primeira. Esta distinção pode ser relevante para as empresas e associações comerciais dos setores do vinho, da cerveja e das bebidas espirituosas, à medida que respondem ao crescente escrutínio dos riscos para a saúde associados ao álcool e à procura dos consumidores por informação de saúde mais clara.

Para os profissionais de saúde, os resultados não parecem apoiar a mensagem simplista de que beber menos após o diagnóstico, por si só, melhora a sobrevivência global das doentes pós-menopáusicas com cancro da mama. Ao mesmo tempo, o estudo não se opõe à redução do consumo de álcool por outros motivos. O álcool pode afetar o sono, a saúde do fígado, as interações com medicamentos, o risco de quedas e outras condições que podem continuar a ser relevantes durante e após o tratamento do cancro. As decisões terapêuticas e as recomendações sobre o estilo de vida são, em geral, individualizadas, sobretudo quando as doentes têm vários problemas de saúde.

O artigo também põe em evidência um problema mais amplo na investigação sobre a sobrevivência após o cancro. O comportamento após um diagnóstico é influenciado por muitos fatores em simultâneo, incluindo o estádio da doença, os efeitos secundários do tratamento, o peso corporal, o tabagismo, a alimentação, a prática de exercício, a saúde mental e o acesso aos cuidados de saúde. Mesmo numa coorte com mais de 1 500 mulheres, a sobreposição destas influências pode dificultar a identificação do efeito de uma alteração específica, como a redução do consumo de álcool.

Os investigadores desta área há muito que assinalam que os estudos sobre o consumo de álcool após o cancro da mama podem apresentar resultados divergentes, consoante a população analisada e o desfecho medido. Algumas análises avaliam a recidiva, outras a mortalidade especificamente por cancro da mama e outras ainda a mortalidade global. Os resultados também podem variar em função da quantidade de álcool consumida, do momento em que o consumo é medido — antes ou depois do diagnóstico —, da biologia do tumor e do historial de tratamento. Sem mais dados provenientes de estudos aleatorizados, difíceis de realizar no caso da exposição ao álcool, a maioria dos estudos pode demonstrar uma associação, mas não uma relação causal clara.

Para as doentes, o estudo poderá responder a uma questão específica, deixando outras em aberto. Sugere que, neste grupo de mulheres pós-menopáusicas com cancro da mama, as reduções declaradas no consumo de álcool após o diagnóstico não estavam associadas a um menor risco de morrer por qualquer causa durante o período de acompanhamento. Contudo, não demonstra que o álcool não tenha qualquer influência nos resultados após o diagnóstico e não altera as evidências estabelecidas de que o álcool aumenta o risco de desenvolver cancro da mama.

A publicação surge numa altura em que as mensagens sobre a prevenção do cancro e o consumo de álcool se tornam mais incisivas em muitos países, e em que as doentes esperam cada vez mais receber recomendações adaptadas ao período após o diagnóstico, e não apenas ao período anterior. Estudos como este fazem parte dessa mudança, mesmo quando não apresentam uma resposta simples.

Gostou do artigo? Partilhe-o!

Cookies

Utilizamos cookies e outras tecnologias para o funcionamento do site, analisar a sua utilização e oferecer conteúdos externos. Pode aceitar, rejeitar ou configurar os cookies opcionais.

Política de cookies