Sindicato agrícola francês pede preços mínimos após fracasso do arranque de vinhas

O Modef considera que o arranque de vinhas financiado com fundos públicos não aumentou os rendimentos dos viticultores e defende ajudas da UE associadas à área cultivada

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Partilhe!

Sindicato agrícola francês pede preços mínimos após fracasso do arranque de vinhas

Um sindicato agrícola francês afirmou na sexta-feira que os sucessivos programas de arranque de vinhas não conseguiram resolver a crise vitivinícola do país e defendeu, em alternativa, preços mínimos para os viticultores e uma nova abordagem à ajuda agrícola europeia.

O Modef, um sindicato agrícola de menor dimensão em França, afirmou que foram usados fundos públicos para reduzir a área de vinha, mas que os cortes não levaram à recuperação dos preços que muitos produtores esperavam. Didier Gadéa, presidente da comissão vitivinícola do Mouvement de défense et coordination des exploitations familiales, disse aos jornalistas que o arranque das vinhas apenas abriu espaço a concorrentes de outros países, em vez de corrigir o desequilíbrio do mercado que afeta os viticultores franceses.

As suas declarações reabrem um debate difícil no setor vitivinícola francês, onde as autoridades e os produtores têm enfrentado um consumo fraco, uma procura em queda em algumas categorias e pressão sobre os rendimentos agrícolas. A discussão está também a ser acompanhada pelo conjunto do setor das bebidas, por abordar uma questão central para produtores, comerciantes e distribuidores de vinho: como reduzir o excesso de oferta sem levar mais explorações familiares à falência nem transferir a produção para o estrangeiro.

O Modef defendeu que os preços baixos, aliados à pressão dos comerciantes de vinho e das grandes cadeias de distribuição, impedem muitos viticultores de ganhar o suficiente para viver. Xavier Fabre, viticultor e presidente do Modef no departamento de Gard, afirmou que muitos produtores estão a abandonar discretamente o setor, a deixar as terras arrendadas e a permitir que algumas parcelas fiquem por cultivar. Segundo disse, o setor atravessa uma situação que equivale a uma crise social, mas sem grande atenção pública.

O sindicato instou o Ministério da Agricultura francês a criar uma unidade de crise que reúna todos os sindicatos agrícolas para enfrentar a situação. Para além das medidas de emergência, defendeu um preço mínimo para os viticultores que garanta um rendimento mínimo, comparando a proposta ao papel do salário mínimo para os trabalhadores por conta de outrem.

O Modef afirmou também que o orçamento da Política Agrícola Comum da União Europeia deve ser preservado enquanto Bruxelas analisa o financiamento para o período de 2028–34, mas defendeu uma mudança na estrutura dos apoios. O sindicato pretende que os subsídios à plantação sejam eliminados e substituídos por ajudas associadas aos hectares cultivados. Segundo afirmou, não faz sentido pagar aos viticultores para plantarem vinhas e, pouco tempo depois, voltar a pagar-lhes para as arrancarem.

Fabre criticou também a distribuição das ajudas ao investimento, afirmando que uma parcela excessiva dos apoios está a ser canalizada para as maiores adegas. A posição do sindicato reflete uma discussão mais ampla entre alguns viticultores, segundo os quais as políticas atuais favorecem os operadores de maior dimensão, enquanto as pequenas explorações familiares suportam os custos do ajustamento do mercado.

O Modef acrescentou que manter as vinhas pode servir outros propósitos para além da produção de vinho. Segundo o sindicato, as vinhas têm ajudado historicamente a proteger as aldeias dos incêndios florestais, funcionando como faixas de contenção na paisagem. Este argumento poderá ganhar mais peso no sul de França, onde o risco de incêndio continua a ser uma preocupação recorrente.

O Governo francês recorreu a programas de arranque de vinhas como uma das respostas ao excesso persistente de oferta em algumas partes do mercado do vinho. Estes programas procuraram reduzir a capacidade de produção com apoio público, mas os críticos afirmam que não abordam a questão mais profunda da distribuição do valor ao longo da cadeia de abastecimento. Por isso, o debate atual não se limita à área de vinha: é também uma disputa sobre o poder de fixação dos preços, a conceção dos subsídios da UE e quem suporta os custos da reestruturação num dos maiores países produtores de vinho da Europa.

Para o setor das bebidas, o desfecho poderá ter consequências muito para além das explorações diretamente envolvidas. Se os decisores políticos franceses e europeus abandonarem os incentivos ao arranque de vinhas em favor da proteção dos rendimentos ou de ajudas associadas à área, isso poderá influenciar os planos de produção das adegas, a distribuição do investimento pelas regiões e o ajustamento da oferta nos próximos anos. Se os decisores políticos continuarem a recorrer ao arranque de vinhas, os pequenos produtores receiam que mais empresas abandonem o mercado sem que os preços melhorem de forma duradoura.

Gostou do artigo? Partilhe-o!

Cookies

Utilizamos cookies e outras tecnologias para o funcionamento do site, analisar a sua utilização e oferecer conteúdos externos. Pode aceitar, rejeitar ou configurar os cookies opcionais.

Política de cookies