Tese sobre Lafite Rothschild regista infeção por botrytis em 69% das uvas biodinâmicas, contra 89% nos controlos biológicos

Estudo de doutoramento em Bordéus registou bagos mais pequenos, cachos menos compactos e películas mais resistentes num ensaio em Pauillac limitado a uma propriedade

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

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Tese sobre Lafite Rothschild regista infeção por botrytis em 69% das uvas biodinâmicas, contra 89% nos controlos biológicos

Uma tese de doutoramento francesa realizada no Château Lafite Rothschild identificou diferenças mensuráveis nas videiras tratadas com preparados biodinâmicos, em comparação com as conduzidas segundo práticas biológicas convencionais, acrescentando novas provas experimentais a um debate que há muito divide os viticultores e tem produzido resultados díspares entre os investigadores.

O trabalho foi realizado por Manuela Brando de Lachapelle, diretora de investigação e desenvolvimento sustentável da Domaines Barons de Rothschild Lafite, sob orientação de Laurence Geny-Denis, da Universidade de Bordéus. O ensaio de campo decorreu em Pauillac, no departamento francês da Gironda, numa área de cerca de 4 hectares, entre 2022 e 2024.

A questão central era saber se os preparados biodinâmicos produzem efeitos na videira para além dos observados na viticultura biológica convencional. Segundo a tese, neste caso, produzem. A investigação identificou bagos mais pequenos, cachos menos compactos e películas das uvas que mantiveram a resistência mecânica durante mais tempo. Detetou também uma menor suscetibilidade à botrytis em testes de exposição realizados em laboratório. Para o setor vitivinícola, este tipo de alterações é relevante, uma vez que a dimensão dos bagos, a resistência das películas e a pressão da podridão podem afetar a seleção das uvas, as perdas na vindima, as opções de vinificação e, potencialmente, o estilo do vinho. Ao mesmo tempo, os resultados dizem respeito a uma única propriedade e a um único programa de tratamentos, pelo que não demonstram que se repetiriam em todas as vinhas.

O estudo foi montado em duas parcelas, com quatro faixas de cerca de 60 linhas cada, alternando entre um controlo em modo de produção biológico e um tratamento biológico com preparados biodinâmicos. Assim, foram feitas quatro repetições de cada tratamento. Todas as parcelas da vinha já eram cultivadas em modo de produção biológico, com cobre, enxofre e infusões de plantas utilizados em toda a propriedade. Os preparados biodinâmicos eram aplicados nas parcelas do ensaio desde 2017 e, para efeitos da experiência, o programa foi uniformizado, em vez de ser ajustado de ano para ano.

Brando de Lachapelle recorreu ao que descreveu como um calendário intensivo, com nove aplicações por ano. O programa incluiu estrume de corno e composto de estrume Maria Thun no início e no fim da época, uma aplicação foliar de estrume de corno no verão e seis aplicações de sílica de corno durante os «dias de fruto», um conceito de calendário usado na prática biodinâmica. A sílica de corno é aplicada na folhagem durante o ciclo vegetativo.

A tese analisou três aspetos do comportamento da videira: crescimento vegetativo, desenvolvimento reprodutivo e maturação textural das películas das uvas. Não identificou efeitos na fisiologia geral da videira em alguns indicadores abrangentes, incluindo os estados fenológicos e a acumulação de reservas. No entanto, surgiram diferenças em cada uma das fases mais detalhadas analisadas.

Durante o crescimento vegetativo, as videiras que receberam preparados biodinâmicos produziram menos fitómeros, as unidades repetidas dos pâmpanos constituídas pelo caule, pela folha e pela gavinha ou pelo cacho entre dois nós. Segundo a tese, estas videiras também revelaram maior restrição hídrica, mas sem mais sintomas visíveis de stress. Brando de Lachapelle afirmou que este padrão poderá apontar para uma utilização mais eficiente da água, embora o mecanismo não tenha sido totalmente estabelecido.

No desenvolvimento reprodutivo, as dissecações dos gomos revelaram mais inflorescências e as contagens efetuadas nessas inflorescências apontaram para um maior número de flores no tratamento biodinâmico. Ainda assim, o aparente aumento do potencial produtivo não se traduziu em mais frutos à vindima, uma vez que também se registou maior desavinho. O resultado foi um número semelhante de cachos e bagos nos dois tratamentos.

As diferenças tornaram-se mais evidentes durante o crescimento dos frutos. As parcelas biodinâmicas produziram bagos mais pequenos e cachos menos compactos. Brando de Lachapelle afirmou que a diferença de produção calculada não ultrapassou os 10%, um nível que descreveu como reduzido, e que a diferença não voltou a surgir nos rendimentos medidos depois de contabilizados os desperdícios e a seleção.

Para compreender por que razão os bagos eram mais pequenos, a investigação aprofundou o estudo do seu desenvolvimento. Não encontrou diferenças significativas durante a fase de multiplicação celular. A diferença surgiu, antes, durante a expansão celular. Segundo a tese, o crescimento dos bagos foi mais limitado no tratamento biodinâmico porque as películas ofereceram maior resistência mecânica durante mais tempo. Brando de Lachapelle associou este fenómeno a uma menor atividade da enzima pectina metilesterase, que abrandaria a degradação da película e limitaria o crescimento dos bagos durante a maturação.

Esta observação levou a estudos adicionais sobre a suscetibilidade às doenças, em particular à botrytis, um fungo que pode danificar as uvas perto da vindima. Num teste in vitro realizado após a recolha de amostras, 89% dos bagos do tratamento de controlo foram afetados ao fim de 25 dias, contra 69% dos bagos do tratamento biodinâmico. Brando de Lachapelle afirmou que a maior proporção de bagos intactos parecia refletir uma menor suscetibilidade ao fungo, devido à maior resistência das películas.

A investigação analisou também se os dois tratamentos originavam diferenças detetáveis no vinho. Seis meses após a vinificação, os provadores conseguiram distinguir os vinhos dos tratamentos biodinâmico e biológico em provas triangulares, nas quais os participantes identificam a amostra diferente entre três copos. No entanto, a análise das pontuações da prova não permitiu identificar uma característica sensorial clara que explicasse a distinção. O efeito também se dissipou com o tempo. Dezoito meses após o engarrafamento, os provadores já não conseguiram detetar diferenças. Brando de Lachapelle sugeriu que a estabilização coloidal ao longo do tempo poderá ser uma das razões, mas afirmou que essa explicação ainda precisa de ser confirmada.

Os resultados destacam-se porque outros estudos nem sempre identificaram efeitos mensuráveis. Um exemplo recente citado na imprensa francesa foi o de Markus Rienth, professor de viticultura em Changins, na Suíça. Num estudo de 2023 realizado numa parcela de Chasselas, a sua equipa comparou a condução em modo biológico com o mesmo sistema complementado pelos preparados biodinâmicos 500 e 501. Após cinco anos de medições, o estudo não encontrou benefícios ou desvantagens significativos na fisiologia da videira, na produção, na qualidade dos bagos ou nas propriedades do solo. Rienth afirmou que esses resultados eram coerentes com um vasto conjunto de estudos.

O contraste entre o trabalho suíço e a tese de Bordéus não significa necessariamente que um esteja certo e o outro errado. A imprensa francesa assinalou que as diferenças poderão estar relacionadas com o protocolo, incluindo a intensidade do programa biodinâmico e a dimensão do desenho experimental. É por isso que a nova tese deverá alimentar o debate, em vez de o encerrar.

Um ensaio de longa duração realizado na Alemanha também sugeriu que os efeitos poderão depender das condições de cultivo. Num ensaio de 18 anos com Riesling em Geisenheim, a equipa liderada por Johanna Döring concluiu que, em média, a produção em modo biológico e biodinâmico foi inferior à obtida em modo convencional ao longo de todo o período. Porém, em anos quentes e secos, os investigadores observaram maior resiliência, com um efeito mais acentuado nas parcelas biodinâmicas.

A equipa de Döring não encontrou diferenças significativas entre os tratamentos biológico e biodinâmico na maioria dos indicadores de desempenho da videira, como o peso da madeira de poda e o peso à vindima, nem nos parâmetros de qualidade das uvas, como o teor de açúcar, o pH e a acidez total. A exceção foi um teor ligeiramente inferior de fósforo nas folhas das parcelas biodinâmicas. O único fator que os investigadores identificaram como possível explicação para a variação da produção nos anos quentes e secos foi o nível de azoto orgânico assimilável no mosto à vindima. Nessas condições, esse nível foi superior nas parcelas biológicas e significativamente superior nas parcelas biodinâmicas, levando à hipótese de que uma melhor absorção de azoto poderá ter contribuído para maiores produções nesses anos.

Apesar das questões por esclarecer, o Château Lafite Rothschild decidiu adotar práticas biodinâmicas, segundo a notícia francesa sobre a tese. Na viticultura biodinâmica, os preparados mais conhecidos são o estrume de corno, denominado 500, que é pulverizado no solo, e a sílica de corno, denominada 501, aplicada na folhagem da videira.

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