Estudo conclui que a quebra global do vinho reflete um desequilíbrio duradouro entre oferta e procura

O excesso de oferta de vinho tinto de gama baixa pressiona quase todos os segmentos do mercado, exceto o topo de gama

terça-feira, 20 de outubro de 2026

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Estudo conclui que a quebra global do vinho reflete um desequilíbrio duradouro entre oferta e procura

Um novo estudo conclui que a quebra global do vinho não é uma interrupção passageira, mas um problema estrutural provocado pelo excesso de oferta e pela fraca procura, sobretudo de vinho tinto de gama baixa. A investigação, da autoria de Kym Anderson, da University of Adelaide, e publicada no Journal of Wine Economics, da Cambridge University Press, afirma que os preços estão agora sob pressão em todos os principais países produtores e em quase todos os segmentos, com exceção do topo de gama do mercado.

Anderson argumenta que o padrão habitual do setor vitivinícola se alterou. Em crises anteriores, a quebra num país produtor podia ser compensada pelo bom desempenho de outro. Desta vez, a pressão é mais generalizada e persistente. Segundo o estudo, o mercado mundial acumula um grande excedente de vinho por vender, sendo o vinho tinto básico o principal foco do desequilíbrio.

Parte do problema resulta de uma longa mudança nos hábitos de consumo. Desde o início da década de 1960, o volume de consumo mundial de cerveja e bebidas espirituosas duplicou, enquanto o consumo de vinho caiu um quarto, segundo o estudo. A quota do vinho no consumo mundial total de bebidas alcoólicas recuou de mais de um terço para menos de um oitavo em 2023. O consumo total de álcool mantém-se estagnado há mais de uma década, e o consumo por adulto caiu 30% face ao pico registado há cerca de 50 anos.

As perdas não foram uniformes dentro do próprio setor do vinho. O vinho tinto tranquilo foi o que mais terreno perdeu, enquanto os vinhos brancos, rosés e espumantes ganharam. Muitos produtores ficaram, assim, com vinhas e existências ligadas a estilos que estão a perder popularidade, embora outras categorias se mantenham mais resilientes.

O estudo descreve também um fosso crescente entre os negócios dos vinhos premium e dos vinhos de grande consumo. Com base em dados da IWSR, indica que o valor das vendas mundiais de vinhos premium, vendidos a mais de 10 dólares por garrafa, aumentou a uma taxa anual de 3,1% entre 2013 e 2022. No mesmo período, o valor das vendas de vinhos abaixo desse preço caiu 2,2% por ano. Essa divisão também se observa nos preços das uvas.

Na Califórnia, o fosso entre Fresno, uma região quente do interior conhecida pelos vinhos de gama baixa, e Napa, associada a vinhos de qualidade, aumentou acentuadamente. O estudo afirma que os preços reais das uvas em Fresno têm vindo a cair desde o final da década de 1990, enquanto Napa registou fortes subidas. Na Austrália, aponta um contraste semelhante entre Riverland, uma região quente ligada à produção a granel, e Mornington, uma zona mais fresca associada a vinhos de gama alta. Depois de subirem na década de 1990, os preços em Riverland caíram a pique nos anos 2000, enquanto os de Mornington continuaram a aumentar.

O mapa do comércio mundial também mudou. Em 1985, Argentina, Austrália, Chile, Nova Zelândia, África do Sul e Estados Unidos representavam 1% das exportações mundiais de vinho, segundo o estudo. No final da década de 2000, os seis países já respondiam por 25% do valor das exportações mundiais e 30% do volume. No mesmo período, a quota conjunta de França, Itália e Espanha caiu para 58% em valor e 53% em volume.

Essa subida foi sustentada por uma longa expansão da produção. Nos 20 anos até 2012, as seis novas potências exportadoras quase duplicaram a produção e exportaram cerca de 40% do que produziram, refere o estudo. A nível mundial, a proporção da produção de vinho destinada aos mercados de exportação aumentou de 10% em 1965 para 43% em 2025. Com isso, o setor ficou mais exposto a mudanças repentinas na procura externa e nos custos de transporte.

Vários choques vieram depois somar-se à pressão. O colapso da procura chinesa, a pandemia de Covid-19 e a forte subida dos custos de transporte marítimo agravaram a situação de um mercado já com excesso de oferta. Na Austrália, afirma o estudo, o excedente atual é superior a uma colheita anual inteira, e o vinho a granel está a ser vendido por menos de 0,60 dólares por litro. Segundo o estudo, uma adega da Califórnia ofereceu vinho Pinot Noir a granel para libertar espaço nas cubas antes da vindima de 2026.

As conclusões são relevantes para o setor das bebidas em geral, para além das vinhas e das adegas. Um longo período de preços baixos no vinho pode afetar as decisões de investimento, as compras de uvas e as estratégias de gestão de existências de produtores, distribuidores e retalhistas que também gerem carteiras de cerveja, bebidas espirituosas e outras bebidas. Pode ainda obrigar as empresas a decidir se mantêm capital empatado em existências de vinho com pouca rotação ou se transferem mais recursos para categorias com uma procura mais forte.

O estudo afirma que a solução mais evidente passa por arrancar vinhas, mas esse processo é lento e dispendioso. A área mundial de vinha diminuiu de 5,4 milhões de hectares para 4,5 milhões de hectares entre 1990 e 2023, uma redução que demorou mais de três décadas. Anderson cita observadores que consideram que poderá ser agora necessária uma redução de dimensão semelhante para aproximar a oferta da procura.

A Califórnia já começou a reduzir a área de vinha. Em 2025, os viticultores arrancaram 38.000 acres de vinha, ou 7% da área total de vinha do estado. Ainda assim, os produtores citados no estudo dizem que não é suficiente. Anderson alerta que, sem um arranque substancial de vinhas ao longo desta década, os preços baixos deverão persistir durante muito tempo e poderão acabar por afetar também alguns vinhos de maior qualidade.

O relatório aponta a Ásia e África como a maior esperança de crescimento a longo prazo, uma vez que o consumo de vinho continua a ser muito baixo em relação à dimensão da população. A Índia e África têm, cada uma, cerca de 1 mil milhões de adultos, mas, em conjunto, representam apenas 1% do consumo mundial de vinho. Para os produtores com cubas cheias, preços baixos das uvas e uma procura fraca de vinho tinto, esse mercado potencial continua a ser uma perspetiva distante, e não imediata.

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