Garrafa de whisky The Macallan vendida por 2,8 milhões de dólares em leilão da Sotheby’s
A venda voltou a destacar as bebidas espirituosas raras como ativos alternativos, valorizados pela escassez, proveniência, idade da barrica e história da marca
segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Uma garrafa de whisky The Macallan foi vendida por 2,8 milhões de dólares num leilão da Sotheby’s este mês, um resultado que está a despertar renovado interesse pela forma como são avaliadas as bebidas espirituosas raras e pelas razões que levam alguns compradores a encarar as garrafas e barricas de topo como ativos alternativos.
A Business Insider, num artigo distribuído pela Yahoo Finance, afirmou que a venda reflete a força da procura no segmento de topo do mercado de bebidas espirituosas, onde a idade, a raridade, a proveniência e a história da marca podem fazer disparar os preços muito para além do valor do líquido. O artigo associou a garrafa a uma das cobiçadas barricas da The Macallan, proveniente do final da década de 1920, e indicou que foi engarrafada em 1986, embora tenha identificado de forma diferente o ano exato da barrica em passagens distintas.
A venda acontece numa altura em que colecionadores abastados e alguns investidores continuam a procurar alternativas às ações e obrigações como reserva de valor, com atrativo cultural. A arte, o vinho, os relógios, as malas e o whisky de coleção têm despertado interesse nos últimos anos, em parte impulsionados por plataformas de investimento que permitem uma participação mais alargada em mercados antes reservados sobretudo a compradores especializados.
Jeremy Kasler, diretor-executivo da empresa de investimento em barricas de whisky CaskX, disse à Business Insider que a oferta e a procura continuam a ser a força básica por detrás do valor das garrafas, mas afirmou que o whisky não se comporta como um mercado de consumo convencional, porque os produtores não conseguem criar rapidamente mais existências envelhecidas quando a procura aumenta. Ao contrário de muitos produtos, não é possível aumentar a curto prazo a quantidade de whisky mais velho. O tempo faz parte do ativo.
Isso ajuda a explicar por que razão os lançamentos de idade muito avançada podem atingir preços tão elevados. O whisky amadurece na barrica, não na garrafa, o que torna a idade e a história da barrica centrais para a avaliação. Neste caso, o interesse pela garrafa estava ligado não só ao nome The Macallan, mas também à sua associação a uma barrica rara, de longo envelhecimento, e ao caráter limitado do lançamento.
Kasler disse à publicação que alguns compradores consideram as próprias barricas um ativo altamente tangível. Comparou a forma como os investidores encaram as barricas de whisky com a maneira como veem as barras de ouro: algo físico, capaz de preservar valor fora dos mercados financeiros tradicionais. Acrescentou que, se as condições de mercado se mantiverem estáveis, a passagem do tempo, por si só, pode aumentar o valor do whisky em envelhecimento, pois a diferença entre uma aguardente muito jovem e outra madura torna-se mais significativa a cada ano.
O interesse não se limita ao Scotch. Marlon Tulaszewski, antigo especialista em whisky da Sotheby’s e atualmente gestor de clientes privados no Campari Group, afirmou que os compradores também estão a revelar um interesse crescente pelo whiskey americano como categoria de coleção e investimento. Segundo ele, o mercado oferece opções de entrada numa ampla gama de preços, o que pode atrair novos colecionadores sem deixar de interessar aos compradores já estabelecidos. Tulaszewski destacou ainda o papel da história das destilarias e das pessoas por detrás das marcas, sugerindo que os compradores pagam muitas vezes também por uma narrativa mais ampla, além da própria bebida.
Este fenómeno é relevante para a indústria das bebidas, porque os preços em destaque nos leilões podem influenciar a forma como produtores, distribuidores e retalhistas encaram o prestígio, a escassez e o posicionamento das marcas. Mesmo que a maioria dos consumidores nunca participe neste segmento do mercado, as vendas recorde podem moldar a perceção do valor das bebidas espirituosas premium e levar a uma maior atenção aos lançamentos limitados, aos programas de barricas e aos artigos de coleção associados a marcas históricas. As mesmas dinâmicas podem estender-se a outras categorias de bebidas, incluindo o vinho e a cerveja de gama alta, onde a proveniência e a raridade também influenciam a procura.
Geoff Kirk, responsável global pelo segmento de prestígio na destilaria The Macallan, disse à Business Insider que a história por detrás de um whisky é um dos principais fatores que os investidores devem ponderar, juntamente com a qualidade e a proveniência. No mercado das bebidas espirituosas raras, a proveniência pode incluir o histórico de propriedade documentado, registos claros de engarrafamento, o estado de conservação, a embalagem e a confiança na autenticidade da garrafa. Estes detalhes são importantes porque os compradores do segmento de topo adquirem muitas vezes não só o valor de consumo, mas também credibilidade histórica e potencial de revenda.
Jonny Fowle, responsável global de whisky e bebidas espirituosas da Sotheby’s, afirmou que o conhecimento do próprio produto continua a ser essencial. Disse à publicação que os melhores resultados têm sido frequentemente alcançados por pessoas que começaram por comprar whisky por genuíno interesse e só mais tarde beneficiaram da valorização dos preços. Na sua opinião, o tempo dedicado a compreender a bebida e o mercado pode ser mais importante do que procurar ganhos rápidos com uma venda mediática.
O resultado de 2,8 milhões de dólares é invulgar mesmo para os padrões dos leilões de luxo, mas os especialistas do mercado entrevistados pela Business Insider afirmaram que as forças por detrás da venda são conhecidas: oferta limitada, longos períodos de envelhecimento, marcas fortes, história documentada e compradores dispostos a pagar por objetos que se situam na confluência entre consumo, coleção e investimento.