Estudo conclui que fungos e bactérias alteram subtilmente a química das folhas da videira
Tempranillo e Cabernet Sauvignon reagiram de forma diferente, sem provas de que as videiras inoculadas tenham resistido melhor às doenças
quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Um estudo publicado na terça-feira na revista Plant Biology concluiu que a inoculação de videiras com fungos micorrízicos e bactérias benéficas provocou alterações pequenas, mas mensuráveis, nos minerais e nos compostos voláteis das folhas, com respostas diferentes nas castas Tempranillo e Cabernet Sauvignon. Os investigadores afirmam que os resultados sugerem que estes microrganismos podem alterar a composição química de base das folhas de formas que poderão ser relevantes para a resposta das videiras a situações posteriores de stress biológico, mas o trabalho não demonstrou que as plantas se tenham tornado mais resistentes às doenças.
O estudo analisou fungos micorrízicos arbusculares, ou AMF, que vivem associados às raízes das plantas, bem como rizobactérias promotoras do crescimento vegetal, conhecidas como PGPR. Os investigadores têm vindo a estudar estas associações microbianas como possíveis alternativas à proteção química das culturas, sobretudo em vinhas que procuram formas de reduzir o impacto ambiental e, ao mesmo tempo, manter a saúde das plantas.
De acordo com o resumo publicado juntamente com o artigo, a equipa avaliou se a inoculação das duas castas com estes microrganismos benéficos poderia melhorar a nutrição das folhas e aumentar os compostos orgânicos voláteis, ou COV, associados às defesas constitutivas das plantas. Estes compostos integram o perfil químico das folhas e podem desempenhar um papel na sinalização das plantas e nas respostas ao stress. Os investigadores mediram também o ionoma das plantas, ou seja, a composição mineral das folhas.
O estudo identificou mais de 40 compostos voláteis nas folhas das duas castas. A maioria foi produzida através da via da lipoxigenase-hidroperóxido liase, associada aos chamados voláteis de folhas verdes, substâncias frequentemente relacionadas com lesões nas plantas e com a sinalização de defesa. A Cabernet Sauvignon apresentou um teor total de COV superior ao da Tempranillo. Apresentou também níveis mais elevados de compostos voláteis foliares pentílicos, de alguns voláteis de folhas verdes e de alguns compostos produzidos através da via do chiquimato.
O tratamento microbiano não afetou as duas castas da mesma forma. Na Cabernet Sauvignon, a associação micorrízica aumentou a concentração de voláteis de folhas verdes e favoreceu a acumulação de 2-hexenal e 3-hexenal, dois compostos associados ao odor das folhas e às respostas das plantas ao stress. Na Tempranillo, pelo contrário, os investigadores registaram uma redução dos compostos voláteis sintetizados através da via do mevalonato.
Os resultados relativos aos minerais também diferiram consoante a casta. A micorrização aumentou os níveis de cobre nas folhas da Tempranillo, ao mesmo tempo que reduziu os níveis de ferro na Cabernet Sauvignon. Nesta última, os fenólicos solúveis das folhas também diminuíram quando as videiras estavam associadas a fungos micorrízicos arbusculares (AMF). Os compostos fenólicos são frequentemente estudados pelo seu papel na defesa e no metabolismo das plantas, embora o resumo do artigo não afirme que as alterações observadas se traduziram numa melhor proteção contra agentes patogénicos.
Os autores descreveram os efeitos como subtis e específicos de cada casta. Por outras palavras, a inoculação microbiana alterou a química das folhas, mas o sentido e a dimensão dessas alterações dependeram da casta. Os investigadores afirmam que as diferenças poderão estar relacionadas com níveis distintos de resistência e acrescentam que não se pode excluir a síntese de COV em resposta ao ataque de agentes patogénicos. Ao mesmo tempo, o resumo não chega a afirmar que o tratamento tenha preparado as videiras, de forma comprovada, para resistirem a uma pressão de doença posterior.
Esta distinção é importante porque o estudo se insere numa procura crescente de ferramentas biológicas que possam ajudar as vinhas a reduzir a dependência de produtos convencionais de proteção das plantas. Sendo a Tempranillo e a Cabernet Sauvignon castas importantes para a produção de vinho, os resultados poderão ser relevantes para o interesse do setor das bebidas numa gestão mais sustentável das vinhas. Mas sugerem também que um tratamento que altere a química das folhas de uma casta poderá não produzir o mesmo efeito noutra, o que limita qualquer pressuposto generalizado de que a inoculação microbiana pode ser aplicada uniformemente às castas destinadas à produção de vinho.
Os investigadores utilizaram microextração em fase sólida do espaço de cabeça e cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa para isolar e analisar os compostos voláteis. Os minerais foram medidos por espectroscopia de emissão ótica por plasma acoplado indutivamente, enquanto as proteínas, os açúcares, os fenólicos, o amido e a prolina foram avaliados através de métodos espectrofotométricos. Estas medições permitiram à equipa comparar tanto as emissões químicas como o estado nutricional das folhas após a inoculação.
O artigo foi publicado por D. Kozikova, I. Pascual, I. Garmendia e N. Goicoechea. Com base no resumo, o estudo acrescenta provas de que os microrganismos benéficos do solo podem influenciar a fisiologia da videira, embora de forma complexa e dependente da casta. Serão necessários mais estudos para determinar se as alterações observadas nas folhas melhoram efetivamente a resistência quando as videiras são expostas a uma pressão real de agentes patogénicos no campo.