Inquérito conclui que medicamentos GLP-1 podem reduzir o consumo de álcool em muitos doentes
Num inquérito da JAMA, 44% dos participantes que consumiam álcool disseram ter reduzido o consumo no prazo de três meses, embora os resultados autorrelatados sejam preliminares
sábado, 31 de outubro de 2026
Um inquérito publicado na sexta-feira, 30 de outubro, na JAMA sugere que os medicamentos agonistas dos recetores GLP-1, amplamente prescritos para a diabetes tipo 2 e a obesidade, podem também estar associados a um menor consumo de álcool em muitos doentes.
O inquérito concluiu que 44% dos mais de 200 participantes que consumiam álcool quando começaram a tomar um medicamento GLP-1 disseram ter reduzido o consumo nos primeiros três meses de tratamento. Os resultados basearam-se em autorrelatos de adultos que já tomavam estes medicamentos, e não num ensaio clínico aleatorizado, e os dados não demonstram que os fármacos tenham causado diretamente essa alteração.
Ainda assim, os resultados vêm juntar-se ao crescente interesse em saber se esta classe de medicamentos pode ter efeitos para além do controlo da glicemia e do peso. Os investigadores disseram que uma possível explicação é que a ativação do recetor GLP-1 possa alterar os sistemas de recompensa do cérebro de forma a reduzir a vontade de consumir álcool. Esta ideia continua a ser uma hipótese e exigirá provas clínicas mais sólidas.
O relatório aponta para uma possível nova via de investigação sobre a perturbação do uso de álcool, uma condição para a qual as opções de tratamento continuam a ser limitadas e as taxas de recaída são elevadas. Se o efeito observado no inquérito se confirmar em estudos controlados, médicos e investigadores poderão começar a analisar se os medicamentos GLP-1 podem contribuir para reduzir os desejos de consumir álcool ou os níveis de consumo em alguns doentes. O artigo da JAMA refere que são necessários mais estudos para confirmar tanto a eficácia como a segurança desta utilização.
As limitações do inquérito são significativas. Como as respostas foram autorrelatadas, os dados podem refletir erros de memória ou expectativas pessoais em relação aos medicamentos. O desenho do estudo também não permite excluir outras razões para a redução do consumo, incluindo alterações na alimentação, objetivos de saúde mais amplos, aconselhamento médico ou menor interesse pelo álcool durante um tratamento para perder peso. Sem um grupo de comparação e um acompanhamento formal ao longo do tempo, os resultados devem ser considerados preliminares.
Ainda assim, o relatório contribui para um debate médico mais amplo sobre a possibilidade de reutilizar medicamentos desenvolvidos inicialmente para doenças metabólicas no tratamento de problemas de saúde comportamental. Os investigadores têm analisado cada vez mais como medicamentos já estabelecidos podem ser usados para outras finalidades, sobretudo quando parecem afetar o apetite, o controlo dos impulsos ou comportamentos relacionados com a recompensa. Neste contexto, o inquérito poderá ajudar a orientar futuros ensaios clínicos concebidos para avaliar com maior rigor os efeitos sobre o consumo de álcool.
Os resultados poderão também ter implicações para além da medicina. Se estudos de maior dimensão vierem a confirmar que alguns doentes consomem menos álcool enquanto tomam medicamentos GLP-1, essa alteração poderá influenciar a procura de álcool, em particular de vinho, cerveja e bebidas espirituosas consumidos por pessoas que recorrem a estes tratamentos para a obesidade ou a diabetes. Por enquanto, qualquer efeito deste tipo é incerto, mas a possibilidade deverá atrair a atenção de empresas de bebidas, retalhistas e analistas de mercado que já acompanham a forma como estes medicamentos poderão alterar os hábitos dos consumidores.
Por enquanto, o relatório da JAMA não estabelece um novo padrão de tratamento. Apresenta um primeiro sinal de que muitos doentes notaram uma redução do consumo de álcool depois de começarem a tomar um medicamento GLP-1, mas deixa em aberto a questão central: se os próprios medicamentos são responsáveis por essa alteração.