Índia ameaça benefício-chave do acordo comercial com o Reino Unido ao procurar aplicar direitos de 150% ao Scotch a granel

Um grupo do setor alerta que as autoridades aduaneiras poderão anular a redução de 75% dos direitos para os principais importadores de whisky

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Partilhe!

Índia ameaça benefício-chave do acordo comercial com o Reino Unido ao procurar aplicar direitos de 150% ao Scotch a granel

A tentativa da Índia de negar tarifas reduzidas a algumas importações de whisky Scotch a granel ameaça uma parte fundamental do acordo comercial que assinou com o Reino Unido, segundo uma carta de um grupo indiano do setor noticiada pela Reuters.

A disputa centra-se na forma como as autoridades aduaneiras indianas classificam os concentrados de Scotch a granel importados por grandes empresas de bebidas espirituosas, incluindo a Diageo e a Pernod Ricard. Se esses produtos forem excluídos das reduções pautais acordadas no âmbito do acordo comercial entre o Reino Unido e a Índia, os importadores poderão ter de pagar a taxa integral de 150%, em vez da taxa reduzida de 75% que entrou em vigor em julho.

A Reuters noticiou que a International Spirits and Wines Association of India, ou ISWAI, escreveu ao ministro do Comércio da Índia para alertar que a questão aduaneira “põe em risco, na prática, um importante benefício de acesso ao mercado negociado e acordado entre a Índia e o Reino Unido”. Segundo a notícia, o grupo afirmou que “o tratamento pautal preferencial negociado […] poderá, na prática, deixar de estar disponível para estas importações”.

O acordo comercial entre a Índia e o Reino Unido entrou em vigor em julho. Nos termos do acordo, a Índia reduziu os direitos de importação sobre o whisky britânico de 150% para 75%, estando prevista uma nova redução para 40% ao longo dos próximos 10 anos. Este alívio pautal foi considerado uma concessão importante num mercado que há muito é difícil para os produtores estrangeiros de bebidas espirituosas, devido aos elevados impostos de importação.

A disputa atual parece centrar-se não no Scotch engarrafado e vendido diretamente aos consumidores, mas no Scotch concentrado ou a granel enviado para a Índia para ser transformado, loteado ou engarrafado localmente. Segundo a Reuters, investigadores indianos disseram em privado às empresas que esses concentrados de Scotch a granel não são elegíveis para a tarifa reduzida prevista no acordo comercial. As autoridades defendem, em vez disso, que as importações devem ser declaradas numa categoria aduaneira que continua sujeita à taxa integral de 150%.

Essa interpretação aumentaria os custos das empresas que recorrem a importações a granel no âmbito das suas operações na Índia. Também reduziria um dos benefícios comerciais concretos prometidos pelo pacto, em particular para as grandes destiladoras multinacionais com atividades de engarrafamento e distribuição já estabelecidas no país.

No início deste mês, a Directorate of Revenue Intelligence da Índia, ou DRI, visitou instalações associadas à Pernod Ricard e à subsidiária indiana da Diageo, no âmbito da investigação sobre a classificação, segundo as informações citadas pela Reuters. A Allied Blenders & Distillers, uma empresa local de bebidas espirituosas, afirmou também na semana passada que funcionários dos serviços fiscais tinham feito uma visita relacionada com a importação de Scotch a granel para a Índia.

As visitas sugerem que a questão ultrapassou a fase de uma divergência técnica de interpretação e entrou numa etapa ativa de fiscalização. As empresas enfrentam agora a possibilidade de importações passadas ou atuais serem analisadas segundo critérios de classificação mais rigorosos, com consequências diretas para os direitos a pagar.

A disputa surge num momento delicado para as relações comerciais mais amplas entre o Reino Unido e a Índia. A redução dos direitos sobre o whisky foi uma das partes mais acompanhadas do acordo comercial bilateral, por responder a uma queixa antiga dos exportadores britânicos e dos produtores de Scotch. A Índia é um dos maiores mercados de whisky do mundo em volume, mas os elevados direitos têm historicamente limitado o acesso das bebidas espirituosas importadas de gama alta.

Para produtores como a Diageo e a Pernod Ricard, a questão da classificação é relevante tanto pelo impacto imediato nos custos como por a Índia ser um mercado estratégico em crescimento. A importação de Scotch a granel pode ser importante para gerir preços, cadeias de abastecimento e custos de produção local. Se estas importações não beneficiarem da tarifa reduzida, as empresas poderão assistir a um forte aumento dos custos de importação e obter do acordo um benefício menor do que esperavam quando este entrou em vigor.

A intervenção da ISWAI revela a preocupação do setor de que a questão possa extravasar uma única disputa aduaneira. O alerta atribuído ao grupo sugere que as empresas receiam que uma interpretação restritiva das autoridades indianas possa, na prática, impedir que uma categoria de importações utilizada por muitos dos principais operadores beneficie da concessão pautal.

O Governo britânico afirmou estar a dialogar com a Índia sobre o assunto. Numa declaração citada na notícia, o Department for Business and Trade do Reino Unido afirmou: “Estamos a trabalhar com o Governo da Índia para resolver esta questão e garantir que as empresas britânicas possam exportar ao abrigo das tarifas acordadas no acordo comercial.”

Esta resposta indica que a questão passou a ser uma preocupação entre governos, e não apenas uma disputa privada entre importadores e funcionários aduaneiros. A questão agora é saber se as duas partes conseguem chegar a um entendimento sobre a aplicação do acordo aos produtos de Scotch a granel ou se as empresas continuarão expostas à tarifa mais elevada enquanto o assunto é analisado.

Nem a carta noticiada nem os comentários citados pela Reuters indicam que o próprio acordo comercial esteja a ser formalmente reaberto. A questão imediata é a forma como as autoridades indianas estão a aplicar as classificações aduaneiras no regime em vigor. No entanto, para as empresas envolvidas, o efeito poderá ser semelhante à perda de um benefício comercial negociado, caso as importações a granel sejam consideradas inelegíveis.

A investigação evidencia também a importância das definições técnicas aduaneiras nos acordos comerciais. Mesmo quando os governos acordam reduzir as taxas pautais gerais, o valor comercial desse compromisso pode depender da forma como produtos específicos são classificados na fronteira. Neste caso, a diferença entre uma taxa de 75% e uma de 150% é suficientemente grande para afetar os preços, as margens e as estratégias de importação de alguns dos maiores grupos mundiais de bebidas espirituosas.

A Reuters noticiou ter tido acesso à carta da ISWAI. A agência noticiosa afirmou que entre os membros do grupo do setor estão a Diageo e a Pernod Ricard. Para além do que foi divulgado na notícia, não foram imediatamente apresentados mais detalhes sobre os pedidos de comentário dirigidos à ISWAI e ao ministério do Comércio da Índia. A questão continua sob análise, enquanto as empresas, as associações do setor e as autoridades avaliam se as importações de Scotch a granel beneficiarão do mesmo alívio pautal que o Reino Unido e a Índia acordaram implementar a partir de julho.

Gostou do artigo? Partilhe-o!

Cookies

Utilizamos cookies e outras tecnologias para o funcionamento do site, analisar a sua utilização e oferecer conteúdos externos. Pode aceitar, rejeitar ou configurar os cookies opcionais.

Política de cookies