Norueguês Nikolai Haram Svorte vence o Melhor Sommelier do Mundo 2026, em Lisboa
A francesa Pascaline Lepeltier ficou em segundo lugar após uma final de quatro horas, com provas de serviço, degustação cega e rótulos gerados por IA com erros
quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O norueguês Nikolai Haram Svorte foi eleito Melhor Sommelier do Mundo 2026, após a final de sexta-feira, em Lisboa, conquistando o título máximo numa das competições internacionais mais acompanhadas do setor do vinho. A francesa Pascaline Lepeltier ficou em segundo lugar e o japonês Wataru Iwata terminou em terceiro.
Svorte chegou a Lisboa com um currículo sólido. Já tinha sido eleito melhor sommelier da Noruega entre 2023 e 2026 e conquistado o título de melhor sommelier dos países nórdicos em 2025. Na final, impôs-se após uma exigente série de provas de serviço, degustação e teoria, que testaram não só os seus conhecimentos sobre vinhos, mas também a rapidez, o sangue-frio e a capacidade de desempenho perante uma audiência ao vivo.
A final foi presidida pelo sommelier sueco Andreas Larsson, vencedor do título mundial em 2007, e durou mais de quatro horas. Svorte competiu primeiro, seguido de Lepeltier e, depois, de Iwata.
Cada finalista teve de cumprir 11 tarefas. As provas abrangeram a preparação da mesa, o serviço, a prova cega, a harmonização de comida e vinho e a análise de rótulos. Uma das provas de análise de rótulos recorreu a rótulos gerados por IA e propositadamente preenchidos com erros, obrigando os concorrentes a identificar as imprecisões sob pressão do tempo. Noutra tarefa, os candidatos tiveram de reconhecer propriedades vinícolas através de obras de arte a elas associadas, acrescentando uma componente cultural invulgar à competição.
A prestação de Svorte ficou marcada pelo rigor técnico. Mostrou-se menos expressivo do que alguns dos seus rivais e, por vezes, pareceu pressionado pelo relógio, mas manteve a consistência nas provas práticas. Lepeltier revelou uma presença em palco mais descontraída do que na competição de 2023, em Paris. Destacou-se durante a análise organolética de um vinho branco, com uma explicação pormenorizada e segura, e concluiu as tarefas dentro do tempo previsto. Iwata, que foi o último a competir, cometeu vários erros na final, incluindo numa prova de decantação de vinho do Porto, que teve de recomeçar.
O resultado representa mais uma excelente classificação internacional para Lepeltier, que voltou a ficar perto do primeiro lugar sem conquistar o título. O segundo lugar coroou uma final em que aliou competência técnica à fluência perante a audiência, uma área em que os candidatos são avaliados tanto pela clareza e serenidade como pela exatidão dos factos.
Antes da final de sexta-feira, os 20 semifinalistas tinham enfrentado um longo dia de competição na quinta-feira. Foram chamados a partir das 8h45 e começaram por realizar um exame teórico escrito, em formato de escolha múltipla. Depois, passaram individualmente por várias provas práticas.
Na primeira sala, cada candidato teve 15 minutos para cumprir quatro tarefas. Teve de identificar três vinhos e explicar os respetivos métodos de produção, fazer a descrição sensorial habitual de um vinho, identificar quatro bebidas à prova cega e, por fim, agrupá-las de forma lógica e fundamentada.
Numa segunda sala, os semifinalistas tiveram 10 minutos para cumprir mais duas tarefas. A primeira foi uma prova clássica de serviço: servir um vinho branco à mesa a quatro clientes. A segunda refletiu um debate mais amplo que está a moldar o setor do vinho. Dois jurados apresentaram-se como consumidores com dúvidas sobre o álcool no vinho e pediram aos candidatos que respondessem, sugerindo alternativas quando adequado.
As respostas variaram. Alguns concorrentes defenderam o vinho, salientando o seu papel cultural e a sua presença à mesa. Outros propuseram rapidamente bebidas sem álcool. Um grupo menor, incluindo Lepeltier, seguiu uma via intermédia, falando de moderação e de vinhos com menor teor alcoólico. A troca de argumentos mostrou que a profissão é chamada a abordar não só o terroir, as colheitas e as harmonizações, mas também as preocupações de saúde pública e a mudança dos hábitos de consumo.
Iwata chegou à competição com um currículo sólido. Foi eleito melhor sommelier do Japão em 2017 e ficou em quinto lugar na competição mundial de 2023, em Paris. O terceiro lugar em Lisboa manteve-o no pódio, numa competição que exigiu domínio de um vasto leque de competências, do serviço clássico de restaurante à identificação técnica e rápida.
Para os finalistas, a competição exigiu muito mais do que conhecimentos teóricos. Os concorrentes tiveram de alternar entre tarefas tradicionais de restauração e desafios menos habituais, incluindo a interpretação de rótulos com erros e a resposta a perguntas sobre opções com baixo ou nenhum teor alcoólico. O formato refletiu uma profissão que continua a valorizar o rigor no serviço e na degustação, mas que também se adapta às novas tecnologias e às expectativas em mudança dos clientes.
Após a semifinal, Lepeltier afirmou que tinha feito o que estava ao seu alcance, enfrentado as tarefas uma a uma e que não tinha arrependimentos. Em Lisboa, essa abordagem ponderada levou-a ao segundo lugar numa final que destacou tanto as bases clássicas do trabalho de sommelier como as novas pressões que estão a moldar o setor.