Brasil pondera prolongar o IPI para evitar uma quebra de receita de 3,82 mil milhões de reais em janeiro de 2027

O Governo poderá avançar com uma emenda constitucional, pois o Imposto Seletivo só poderá ser cobrado a partir de fevereiro.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

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Brasil pondera prolongar o IPI para evitar uma quebra de receita de 3,82 mil milhões de reais em janeiro de 2027

O Ministério das Finanças do Brasil está a ponderar uma emenda constitucional para prolongar temporariamente o imposto federal sobre produtos industrializados, conhecido como IPI, aplicado a produtos como tabaco, bebidas alcoólicas, refrigerantes e alguns veículos. Brasília procura evitar uma quebra de receita no início de 2027, causada pelo atraso na entrada em vigor do novo Imposto Seletivo, que deverá substituir o IPI.

A Folha de S.Paulo noticiou que o Governo está a estudar a apresentação da proposta ao Congresso após a segunda volta das eleições. O objetivo imediato é evitar uma quebra de quase 4 mil milhões de reais em janeiro de 2027, uma vez que o Imposto Seletivo, por vezes designado no Brasil como «imposto do pecado», não estará pronto a tempo de começar a ser cobrado a 1 de janeiro.

Segundo a notícia, o tema foi discutido numa reunião realizada na terça-feira, em Brasília, que contou com a presença de responsáveis do Ministério das Finanças, incluindo o secretário-executivo Dario Durigan, representantes da Receita Federal do Brasil, da Confederação Nacional da Indústria e de empresas afetadas pelo novo imposto. Mais tarde, o ministério afirmou que se reuniu, a pedido da associação industrial, com setores que serão afetados pelo Imposto Seletivo, para ouvir as suas preocupações e identificar possíveis passos seguintes.

«A intenção do Governo é garantir previsibilidade e segurança jurídica para 2027», afirmou o ministério num comunicado citado pelo jornal. Acrescentou que a discussão do Imposto Seletivo no Congresso, bem como os detalhes de qualquer proposta, teria lugar «no momento oportuno».

O problema de calendário decorre da regra brasileira que exige um prazo de 90 dias antes do início da cobrança de um imposto. A medida provisória necessária para definir as taxas e as regras pormenorizadas do Imposto Seletivo tinha de ser publicada até 2 de outubro para que o imposto entrasse em vigor em janeiro. O Governo adiou essa etapa para depois das eleições. Como resultado, o novo imposto só poderá começar a ser cobrado em fevereiro, deixando uma lacuna de um mês na receita caso o IPI não seja prolongado.

A perda estimada é de 3,82 mil milhões de reais, o equivalente a 9% da receita que o Governo espera obter com o Imposto Seletivo em 2027. As autoridades procuram evitar essa quebra sem alterar mais do que o necessário o calendário geral da reforma fiscal.

No âmbito da reforma fiscal brasileira, o IPI deverá ser extinto em janeiro de 2027, com exceção dos produtos semelhantes aos fabricados na Zona Franca de Manaus quando produzidos fora da região ou importados, como telemóveis e motociclos. O Congresso já definiu quais os produtos que passarão do IPI para o Imposto Seletivo, mas deixou para regulamentação posterior a definição das taxas e das regras de cobrança.

Ao abrigo da reforma, o Imposto Seletivo substituirá o IPI no caso do tabaco, das bebidas alcoólicas, das bebidas açucaradas e dos veículos classificados como poluentes. Ao contrário do IPI em vigor, cuja taxa é fixada em função do tipo de produto, o novo imposto também poderá variar consoante os potenciais danos. No caso das bebidas alcoólicas, por exemplo, isso poderá traduzir-se num tratamento diferente consoante o teor alcoólico. A transição assume, assim, particular importância para os produtores e importadores de cerveja, vinho e bebidas espirituosas, cujos custos, preços e planeamento da produção poderão ser afetados pela configuração final do imposto e por qualquer prolongamento temporário do imposto atual.

Empresas dos setores da cerveja, do vinho, das bebidas espirituosas e dos refrigerantes estiveram entre as presentes na reunião em Brasília, juntamente com fabricantes de cigarros, produtores de aeronaves e representantes dos setores mineiro e petrolífero. Todos esses setores serão afetados, de alguma forma, pelo Imposto Seletivo. A única reação pública divulgada após a reunião foi a do Sindicerv, a associação nacional da indústria cervejeira brasileira, que afirmou reconhecer o esforço do Ministério das Finanças para alcançar um acordo com diferentes setores, sob a coordenação da Confederação Nacional da Indústria. A associação declarou apoiar os princípios da reforma e aguardar agora que o Governo apresente uma proposta com taxas do Imposto Seletivo que respeitem os compromissos assumidos nas negociações.

Na reunião, os responsáveis do Governo reiteraram também a promessa de calibrar as taxas do Imposto Seletivo de modo a manter a carga fiscal global em linha com o que as empresas pagam atualmente ao abrigo do IPI. Segundo a notícia, o Governo comprometeu-se a aplicar uma taxa de Imposto Seletivo de 0% no primeiro ano aos bens minerais abrangidos pelo novo imposto, incluindo minério de ferro, petróleo, carvão e gás.

Segundo a notícia, os setores afetados continuam a avaliar o impacto operacional do prolongamento do IPI antes de assumirem uma posição formal. Uma alternativa para o Governo seria aumentar as taxas do Imposto Seletivo mais tarde, em 2027, para recuperar a receita perdida em janeiro. Mas essa opção comporta riscos. As empresas poderiam acelerar a produção em janeiro para beneficiar de uma carga fiscal mais baixa antes da entrada em vigor das taxas mais elevadas, reduzindo o aumento de receita previsto para os meses seguintes.

A possibilidade de uma emenda constitucional também suscitou preocupação entre advogados fiscalistas e empresas, que receiam que a reabertura do texto da reforma, mesmo para um ajustamento limitado relacionado com o IPI, possa levar o Congresso a rever outras partes do pacote. Isso contrariaria o esforço do atual Governo para preservar o calendário da reforma.

A reforma fiscal tornou-se um tema da campanha eleitoral no Brasil. A Folha noticiou que o candidato Flávio Bolsonaro prometeu adiar ou rever partes do novo sistema caso seja eleito, embora os seus assessores económicos não tenham especificado publicamente que alterações pretendem fazer. O Governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido a manutenção do calendário da transição em janeiro, destacando outras componentes da reforma, incluindo a devolução de impostos às famílias com baixos rendimentos inscritas em programas sociais e a isenção fiscal da cesta básica brasileira no novo sistema.

A transição abrange mais do que o IPI e o Imposto Seletivo. Em janeiro, o Brasil deverá também eliminar o PIS, a Cofins e o imposto IOF sobre seguros, substituindo-os pela nova contribuição federal sobre bens e serviços, conhecida como CBS. Qualquer adiamento desta parte da transição também exigiria alterações constitucionais. A taxa da CBS deverá ser conhecida ainda este mês, após os cálculos do Tribunal de Contas da União (TCU), com base em dados da autoridade tributária. Espera-se que o Senado confirme a taxa até dezembro. Caso não o faça, entrará em vigor a taxa definida pelo tribunal. Nesse caso, a Constituição não exige um período de espera de 90 dias antes do início da cobrança.

O atraso é relevante para as finanças públicas do Brasil, uma vez que cerca de um terço da receita gerida pela Receita Federal provém de impostos que estão a ser alterados pela reforma. Segundo a proposta de orçamento do Governo para 2027, Brasília precisa de arrecadar, com esses impostos, uma receita equivalente a cerca de 5% do produto interno bruto para manter a carga fiscal global na média de 2012-2021, conforme exige o mecanismo da reforma destinado a impedir um aumento de impostos. Isso corresponde a 725 mil milhões de reais.

A mesma proposta de orçamento prevê uma receita de 636,8 mil milhões de reais da CBS, ou 4,3% do PIB, a cobrar entre fevereiro e dezembro. Para janeiro, estima cerca de 46 mil milhões de reais, ou 0,3% do PIB, provenientes dos impostos que serão extintos, mas que ainda se aplicam a factos tributáveis de 2026. Prevê também uma receita de 41,9 mil milhões de reais do Imposto Seletivo, ou 0,3% do PIB, um valor que cobriria pouco mais de 40% da receita atualmente gerada pelo IPI.

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