Quase metade das adegas italianas ainda não utiliza inteligência artificial
Um relatório da TEHA concluiu que apenas 15,1% preveem investimentos digitais, suscitando preocupações quanto à competitividade de uma das principais economias vitivinícolas
sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Um novo relatório setorial em Itália aponta para um ritmo lento de adoção digital num dos países produtores de vinho mais importantes do mundo: quase metade das adegas italianas ainda não utiliza inteligência artificial.
Segundo o relatório Vision Vino 2026, da TEHA, citado pelo Gambero Rosso, 49% das adegas italianas não utilizam inteligência artificial. O mesmo relatório concluiu que apenas 15,1% das adegas identificam a digitalização e a inovação dos processos como prioridades para o próximo ciclo de investimentos.
Os números sugerem que grande parte do setor está a avançar lentamente na adoção de tecnologias cada vez mais comuns na indústria transformadora e nos bens de consumo, incluindo empresas ligadas à agricultura. No setor do vinho, as ferramentas digitais podem ter impacto em várias áreas, desde a gestão da vinha e o planeamento da produção até à logística, à análise das vendas e à relação com os clientes. Um baixo nível de adoção não demonstra, por si só, um fraco desempenho, mas indica que muitos produtores poderão estar a adiar mudanças que os concorrentes de outros mercados já estão a testar ou a expandir.
A Itália é um dos maiores e mais influentes produtores de vinho do mundo, pelo que os dados são relevantes para além do mercado interno do país. Para o setor das bebidas, esta diferença aponta para um possível problema de competitividade numa das principais economias vitivinícolas. Se as adegas investirem menos em sistemas digitais e em inteligência artificial do que os concorrentes de outros países, o impacto poderá fazer-se sentir, com o tempo, na produtividade, no controlo de custos, na capacidade de resposta à procura e na aptidão para competir nos mercados de exportação.
As conclusões do relatório mostram também que a inteligência artificial está longe de ser uma prática corrente em todo o setor. Com 49% das adegas a não a utilizarem de todo, a adoção parece ser desigual e estar provavelmente concentrada num grupo mais restrito de produtores, com mais capital, maior apoio técnico ou estratégias digitais mais claras. Assim, uma ampla faixa intermédia e inferior do mercado continua a depender sobretudo de modelos operacionais tradicionais.
Os dados sobre o investimento reforçam este cenário. Quando apenas 15,1% das adegas afirmam que a digitalização e a inovação dos processos estão entre as suas prioridades futuras, isso sugere que a maioria dos produtores planeia direcionar os gastos para outras áreas. O resumo do relatório citado pelo Gambero Rosso não indica onde deverá ser aplicado esse capital, na sua maioria, mas o número mostra que a tecnologia ainda não está no centro das decisões da maior parte das adegas italianas.
Esta hesitação surge numa altura em que os produtores de vinho enfrentam pressões em várias frentes, incluindo os custos, as mudanças na distribuição e a evolução dos comportamentos dos consumidores. Neste contexto, os sistemas digitais são frequentemente apresentados como ferramentas que podem ajudar as empresas a melhorar as previsões, reduzir o desperdício, gerir os inventários com maior eficiência e fundamentar as decisões comerciais em dados mais sólidos. A inteligência artificial, embora ainda tenha uma utilização desigual nas empresas de alimentação e bebidas, também está a ser testada em tarefas como a análise da procura, o controlo da qualidade e a segmentação mais precisa das ações de marketing.
As conclusões da TEHA não afirmam que as adegas estejam a rejeitar a inovação por completo. Mostram, contudo, uma clara distância entre o debate público em torno da inteligência artificial e o nível da sua adoção efetiva nas adegas e nas operações empresariais. Esta diferença é assinalável num setor que combina agricultura, indústria transformadora, marcas e comércio internacional, áreas em que sistemas de dados mais eficazes podem influenciar os resultados.
Para os produtores, a questão não é apenas saber se a inteligência artificial se tornará uma tendência, mas também se o investimento digital passará a ser um requisito básico para operar com eficiência num mercado mais competitivo. Para os importadores, distribuidores e retalhistas que dependem do vinho italiano, uma modernização mais lenta numa base de abastecimento tão vasta poderá, a prazo, influenciar os níveis de serviço, a capacidade de planeamento e a rapidez com que os produtores se adaptam às mudanças do mercado.
O Gambero Rosso apresentou o relatório da TEHA como prova de uma fragilidade estrutural na abordagem do setor à inovação. Com base nos números citados, a preocupação prende-se menos com uma moda tecnológica de curto prazo do que com a preparação das adegas italianas, a longo prazo, para modernizarem as suas operações, num contexto de intensa concorrência global no setor do vinho.