Produtores de vinho em todo o mundo revêem planos para as vinhas após NOAA alertar para um El Niño intenso
As temperaturas do Pacífico poderão atingir 2,5 graus Celsius acima da média, alterando os padrões de chuva e calor da Califórnia à África do Sul
terça-feira, 20 de outubro de 2026

Produtores de vinho da Califórnia ao Chile, à Austrália e à África do Sul estão a ajustar os planos para as vinhas depois de os meteorologistas norte-americanos terem alertado para o regresso do El Niño, que poderá tornar-se um dos episódios mais intensos das últimas décadas e alterar os padrões de precipitação e temperatura em algumas das maiores regiões vitivinícolas do mundo.
O Serviço Meteorológico Nacional da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) emitiu um alerta de El Niño a 11 de junho, indicando que a fase quente da Oscilação Sul-El Niño se tinha desenvolvido no Pacífico equatorial. A NOAA afirmou que havia uma probabilidade de 83% de as temperaturas da superfície do mar no último trimestre de 2026 ficarem até 2,5 graus Celsius acima da média, um nível que poderá fazer deste um dos episódios de El Niño mais intensos desde 1950. A agência afirma que se declara um El Niño quando as temperaturas da superfície do Pacífico equatorial sobem pelo menos 0,5 grau Celsius acima da média de longo prazo, e que o fenómeno é frequentemente considerado um «super El Niño» quando o aquecimento ultrapassa os dois graus.
O fenómeno climático começa quando os ventos alísios, que normalmente empurram as águas quentes da superfície para oeste, enfraquecem ou mudam de direcção. Isso perturba a habitual subida de águas mais frias e retém mais calor nas zonas central e oriental do Pacífico. O resultado pode ser uma alteração ampla dos padrões meteorológicos, muito para além do próprio oceano, trazendo frequentemente mais chuva e tempestades ao Pacífico oriental e aumentando o risco de calor ou seca noutras regiões. Nas vinhas, isso pode traduzir-se em problemas muito diferentes consoante a localização, como humidade excessiva, chuva em momentos inoportunos, menos horas de sol ou escassez de água.
Na Califórnia, os viticultores dizem que o fenómeno actual parece estar a começar mais cedo do que muitos episódios anteriores de El Niño. Marshall Miller, director de operações da Thornhill Companies, que detém vinhas no condado de Santa Barbara, incluindo a Bien Nacido Vineyard, afirmou que as condições mais quentes do oceano chegaram antes do esperado e trouxeram mais humidade no início do ano. Segundo Miller, isso poderá afectar a dormência se as temperaturas de Inverno não forem suficientemente baixas, mas a precipitação continua a ser a principal preocupação no condado de Santa Barbara.
Para os viticultores da região, a diferença entre um Inverno benéfico e um prejudicial poderá depender da forma como a chuva cai. Miller afirmou que uma precipitação regular e moderada pode favorecer o crescimento de raízes mais profundas e melhorar o acesso à água numa região que, durante a época de crescimento, depende frequentemente da rega. Porém, aguaceiros curtos e intensos podem provocar inundações, erosão e até o risco de deslizamentos de terras em encostas. Os episódios de chuva intensa também tendem a escoar rapidamente, em vez de se infiltrarem no solo, limitando o seu contributo para a recarga das águas subterrâneas.
Steve Matthiasson, produtor de vinho do Napa Valley, afirmou que o El Niño nunca teve um efeito uniforme em toda a Califórnia. Observou que as zonas meridionais do estado esperam frequentemente mais chuva, enquanto o norte da Califórnia pode continuar seco em alguns anos de El Niño, porque a corrente de jacto nem sempre segue o mesmo trajecto. Desta vez, porém, os observadores esperam que Napa receba mais chuva, e os viticultores estão a preparar-se para essa possibilidade.
Matthiasson afirmou que a água adicional é, em geral, bem-vinda, mas exige também trabalho na vinha antes da chegada do período mais chuvoso. Disse que o seu programa de agricultura biológica e regenerativa prevê a distribuição de composto, a sementeira rápida de culturas de cobertura e a colocação de fardos de palha e de outras estruturas de controlo da erosão nas zonas vulneráveis. Estas medidas visam manter o solo no lugar e abrandar o escoamento da água durante períodos de chuva intensa.
No Chile, o cenário também é misto. Marcelo Papa, enólogo-chefe da Concha y Toro, afirmou que os anos de El Niño costumam trazer mais chuva, o que pode ser positivo num país seco, onde a água é valiosa. Mas sublinhou que o momento em que chove é importante. Se a precipitação ocorrer em Fevereiro, Março ou Abril, durante ou perto das vindimas, pode danificar as uvas e prejudicar a colheita. Papa apontou 2016 como exemplo de uma campanha em que a chuva durante as vindimas provocou perdas avultadas.
Papa afirmou que o El Niño no Chile também costuma trazer mais nebulosidade, reduzindo a exposição solar durante a época de crescimento. Isso pode atrasar as vindimas até duas semanas. Segundo o enólogo, a menor radiação tende a favorecer os vinhos brancos, que podem apresentar mais frescura e acidez, enquanto os tintos podem ser mais difíceis de produzir, uma vez que as uvas poderão não atingir os mesmos níveis de açúcar e concentração dos anos mais soalheiros. Na prática, isso significa que as alterações climáticas podem afectar não só os rendimentos, mas também o estilo dos vinhos que chegam ao mercado.
A Austrália enfrenta outro conjunto de riscos. Dylan Grigg, consultor australiano de viticultura, afirmou que o El Niño é apenas um dos vários factores climáticos importantes que afectam as vinhas do país. Segundo explicou, o Dipolo do Oceano Índico e o Modo Anular do Sul podem intensificar ou atenuar o impacto do El Niño, sobretudo no sul da Austrália. O Bureau of Meteorology da Austrália prevê um final de 2026 mais quente e seco, mas Grigg afirmou que as chuvas excepcionais de Inverno poderão reduzir parte da pressão sobre as vinhas nesta campanha.
Esta incerteza dificulta o planeamento dos viticultores e das adegas. Um final de ano quente e seco pode aumentar as necessidades de rega e o risco de stress térmico nas videiras. Ao mesmo tempo, chuvas intensas no Inverno podem melhorar temporariamente a humidade do solo. O equilíbrio entre estes factores irá variar consoante a região e a duração do período de calor.
Na África do Sul, responsáveis do sector afirmam que o El Niño costuma trazer temperaturas diurnas mais elevadas, noites frescas e menor disponibilidade de água. Gerard Martin, responsável pela investigação, desenvolvimento e inovação na South African Wine, afirmou que estas condições se assemelham às pressões mais amplas que o sector já enfrenta devido às alterações climáticas. Após a seca no Cabo Ocidental, entre 2015 e 2018, a Universidade de Stellenbosch e parceiros do sector estudaram sistemas de condução da vinha, rega deficitária e outros métodos para gerir a menor disponibilidade de água.
Martin afirmou que algumas vinhas no Swartland demonstraram ser possível manter rendimentos e qualidade das uvas comparáveis utilizando menos 50% de água, em determinadas condições. Isso não elimina o risco de um ano seco associado ao El Niño, mas sugere que alguns produtores estão mais bem preparados do que há uma década.
Em todo o sector vitivinícola, a questão é importante para lá da vinha, uma vez que as alterações meteorológicas podem afectar os calendários de rega, a pressão das doenças, as necessidades de mão-de-obra, o momento das vindimas e os custos das adegas. Mais chuva pode aumentar o risco de doenças fúngicas e os gastos com a gestão da vegetação, a drenagem e a protecção do solo. Condições mais secas e quentes podem elevar a procura de água e pressionar regiões que já enfrentam escassez de recursos. Estas alterações podem reduzir os rendimentos em alguns locais, modificar a qualidade das uvas noutros e afectar potencialmente o volume, o estilo e o custo dos vinhos vendidos a distribuidores, retalhistas, restaurantes e consumidores.
A grande variedade de resultados possíveis é uma das razões pelas quais os produtores se pronunciam com cautela. O El Niño não produz o mesmo efeito em todos os países, nem sequer dentro do mesmo estado. No oeste dos Estados Unidos, por exemplo, os seus efeitos mais intensos fazem-se geralmente sentir no Inverno, mas o aquecimento deste ano começou excepcionalmente cedo. No Chile, a chuva benéfica pode tornar-se prejudicial se atingir as vinhas no final da época. Na Austrália e na África do Sul, a principal preocupação é muitas vezes saber se a humidade já existente no solo e os sistemas de gestão da água poderão compensar o tempo mais quente e seco.
Para os viticultores, isso significa planear simultaneamente para mais do que um cenário. Alguns procuram captar e conservar a água da chuva. Outros preparam-se para a erosão, o atraso na maturação ou a menor exposição solar. Nas regiões com um historial de seca, os produtores recorrem cada vez mais a técnicas concebidas para fazer render as reservas limitadas de água e proteger a qualidade das uvas caso o calor se intensifique mais tarde na época.