Tanzânia concede patente para conservante de vinho à base de cascas de laranja após testes reduzirem escurecimento em 74%

A Universidade de Dar es Salaam afirma que o extrato, ainda em fase laboratorial, superou o ácido ascórbico, mas continua sem ser testado à escala industrial

sábado, 24 de outubro de 2026

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Investigadores da Universidade de Dar es Salaam obtiveram na Tanzânia a aprovação de uma patente para uma tecnologia de conservação do vinho à base de cascas de laranja. A inovação, ainda em fase laboratorial, reduziu em cerca de 74% o escurecimento do vinho tratado ao longo de 28 dias, segundo a universidade.

A aprovação, anunciada pela Universidade de Dar es Salaam a 23 de outubro, abrange uma invenção descrita como um agente natural anti-escurecimento, obtido a partir de extrato bruto de casca de laranja, para a produção de vinho. Segundo a universidade, a Business Registrations and Licensing Agency da Tanzânia, conhecida como BRELA, informou a instituição a 15 de setembro de que o registo decidira conceder a patente. O pedido foi apresentado em nome da Universidade de Dar es Salaam com o número TZ/P/2026/000219.

O trabalho foi desenvolvido em colaboração por investigadores do Dar es Salaam University College of Education, que faz parte da Universidade de Dar es Salaam, e da Muhimbili University of Health and Allied Sciences, através do seu Institute of Traditional Medicine. Os inventores identificados no pedido de patente são Martine Kabezi, Lucas Paul Luchemba, James Zacharia Tano Zacharia e Michael Qwarse Xwatsal.

Segundo a universidade, a investigação centrou-se num problema antigo na conservação e comercialização do vinho: o escurecimento provocado pela oxidação. Durante o armazenamento, as reações oxidativas podem alterar a cor do vinho e afetar o seu aspeto visual. Os produtores recorrem frequentemente a sulfitos e a outros aditivos para controlar essas alterações, o que tem despertado interesse em alternativas capazes de preservar a cor através de matérias-primas naturais.

A equipa de Dar es Salaam afirmou que as cascas de laranja, habitualmente descartadas após o consumo ou a transformação alimentar, contêm compostos antioxidantes, incluindo polifenóis, flavonoides e ácido ascórbico. Os investigadores utilizaram esses compostos para desenvolver um extrato destinado a abrandar as reações que provocam o escurecimento.

A universidade explicou que o processo começa com a recolha das cascas de laranja, seguida da secagem e moagem. Os compostos antioxidantes são extraídos com um sistema de solventes à base de etanol e água. Em seguida, o material é filtrado, concentrado e seco antes de ser preparado para utilização na produção de vinho.

Nos testes laboratoriais, o extrato teve um desempenho superior ao do ácido ascórbico na mesma concentração e aproximou-se da eficácia do dióxido de enxofre, um conservante amplamente utilizado no vinho, segundo a universidade. Os documentos da patente citados pela universidade indicam que uma concentração de cerca de 20 miligramas por litro inibiu significativamente o escurecimento, mantendo uma qualidade sensorial aceitável nas condições testadas.

Lucas Luchemba afirmou que os investigadores procuraram perceber se materiais locais, muitas vezes tratados como resíduos, poderiam ser transformados em produtos úteis. Em declarações divulgadas pela universidade, disse que os resultados laboratoriais sugerem que o extrato de casca de laranja poderá ajudar a combater o escurecimento do vinho. Martine Kabezi afirmou que os resultados eram encorajadores, mas sublinhou também que será necessário continuar o desenvolvimento para determinar como a tecnologia poderá ser utilizada fora do laboratório.

Esta ressalva é importante porque a aprovação da patente não significa que o produto esteja pronto para ser comercializado. A própria universidade afirmou que o impacto mais amplo da invenção dependerá do desenvolvimento adicional, da viabilidade da produção e da capacidade de transformar os resultados laboratoriais em aplicações práticas. O anúncio não apresentou dados de ensaios à escala industrial, estudos de vida útil em condições comerciais nem informações sobre custos de fabrico, etapas regulamentares ou adoção pelas adegas.

Ainda assim, o desenvolvimento poderá chamar a atenção do setor das bebidas, por apontar para duas questões que os produtores acompanham de perto: a valorização de resíduos e as novas soluções de conservação. Se os testes futuros confirmarem os resultados iniciais, o extrato poderá permitir transformar um subproduto dos citrinos num ingrediente funcional para o vinho e, possivelmente, para outras bebidas fermentadas em que a oxidação e a estabilidade da cor sejam relevantes. Para as adegas e outros fabricantes de bebidas, o interesse não estará apenas em saber se o extrato funciona, mas também se pode ser produzido de forma consistente, em escala e a um custo viável para a produção.

A universidade apresentou a patente como um exemplo de abordagem assente na economia circular. As cascas de laranja são normalmente descartadas, mas a investigação sugere que poderão ter valor enquanto fonte de compostos recuperáveis e reutilizáveis. Isso poderá criar uma ligação entre os resíduos da transformação alimentar e a conservação de bebidas, contribuindo também para os esforços de redução do desperdício.

Para a Tanzânia, o anúncio transmite também uma mensagem sobre a capacidade de investigação local e a aplicação industrial. A universidade afirmou que a invenção demonstra como materiais disponíveis localmente podem ser utilizados em investigação científica orientada para problemas práticos. Nelson Boniface, vice-reitor para a investigação da Universidade de Dar es Salaam, afirmou que a aprovação da patente reflete o valor do investimento em investigação que responde a desafios concretos e a importância de proteger a propriedade intelectual para que as descobertas possam avançar para uma utilização prática.

A patente proporciona também à universidade uma base formal para iniciar conversações sobre transferência de tecnologia ou comercialização, caso a investigação avance. As universidades e os institutos de investigação recorrem frequentemente à proteção por patente para assegurar a titularidade antes de procurarem parceiros que testem, ampliem a produção ou licenciem uma invenção. Neste caso, essa etapa parece ainda estar por concretizar. A universidade afirmou que a aprovação é um passo importante para proteger a invenção e reconhecer a investigação que lhe está na origem, mas não prova que o produto esteja pronto para o mercado.

O anúncio surge numa altura em que os produtores dos setores alimentar e das bebidas estão a prestar mais atenção aos aditivos naturais, à reutilização de subprodutos e à eficiência das cadeias de abastecimento. O trabalho da equipa de Dar es Salaam enquadra-se nessa tendência mais ampla, embora a sua relevância comercial dependa de provas de que o extrato consegue produzir resultados fiáveis fora de condições laboratoriais controladas.

Por enquanto, o principal avanço confirmado é a aprovação da patente e o resultado laboratorial divulgado, que aponta para uma redução do escurecimento ao longo de 28 dias. A viabilidade do extrato de casca de laranja como ferramenta para adegas ou outros fabricantes de bebidas dependerá de validação futura, dos métodos de produção e da adesão do setor.

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