Deputados franceses apresentam projeto de lei para dar mais poderes aos presidentes de câmara sobre vinhas abandonadas
A proposta entra em análise na comissão, com novas ferramentas para os municípios preservarem terrenos vitícolas e gerirem parcelas negligenciadas
quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Um projeto de lei apresentado na terça-feira na Assembleia Nacional francesa pretende reforçar a resposta do país às vinhas abandonadas e alargar os instrumentos à disposição das autoridades locais para proteger terrenos agrícolas e gerir o desenvolvimento rural.
A iniciativa, registada como Projeto de Lei n.º 3420 na XVII legislatura, é descrita no site da Assembleia Nacional como uma proposta para preservar o potencial vitícola de França e conferir novos poderes aos eleitos locais em matéria de proteção dos espaços agrícolas e ordenamento do território. O projeto foi apresentado a 27 de outubro e encaminhado para a Comissão dos Assuntos Económicos no âmbito do processo legislativo.
A proposta ainda não foi aprovada, e a sua apresentação marca o início da apreciação parlamentar, não uma alteração da lei. Em França, um projeto de lei tem ainda de passar pela análise em comissão e pelo processo legislativo mais amplo antes de qualquer disposição poder entrar em vigor.
De acordo com a síntese de acompanhamento do texto, a proposta reforçaria a fiscalização e os poderes municipais nos casos que envolvem vinhas que já não são cultivadas. Criaria também novas formas de servidões agrícolas de vizinhança, uma medida que poderia afetar a utilização dos terrenos próximos e a forma como as autoridades locais lidam com as tensões entre a atividade agrícola, os direitos de propriedade e a gestão do território.
A questão é sensível nas regiões vitivinícolas francesas, porque as vinhas abandonadas podem representar mais do que um problema de aparência ou de propriedade. As parcelas sem manutenção podem suscitar preocupações com doenças das plantas, pragas e a perda gradual de terrenos produtivos em zonas onde a viticultura há muito molda as economias locais. Um quadro jurídico mais robusto poderia, por isso, ter implicações não só para os proprietários e as câmaras municipais, mas também para o setor vitivinícola em geral, se contribuir para proteger a capacidade vitícola futura.
A importância da questão vai além da política agrícola. França continua a ser um dos maiores países produtores de vinho do mundo, e as alterações que afetem a manutenção, a recuperação ou a regulamentação dos terrenos vitícolas podem, a prazo, influenciar as condições de oferta, as decisões de investimento e a estabilidade a longo prazo das regiões produtoras. Regras mais rigorosas para as vinhas negligenciadas também poderão aumentar as exigências de cumprimento para alguns proprietários, ao mesmo tempo que dão aos municípios maior margem de intervenção.
A página do projeto de lei no site da Assembleia Nacional apresenta a designação oficial da proposta e dá acesso ao processo legislativo, às alterações e à página da comissão, mas não indica que a medida tenha avançado para aprovação. Nesta fase, a proposta é uma iniciativa legislativa que visa dotar os governos locais de instrumentos adicionais num setor em que a política agrícola, o risco ambiental e o ordenamento do território frequentemente se cruzam.
A apresentação do projeto ocorre num momento em que muitas regiões vitivinícolas europeias enfrentam várias pressões, incluindo alterações nas condições de mercado, dificuldades na sucessão das explorações agrícolas, fragmentação fundiária e custos de manutenção das vinhas que já não são economicamente viáveis para alguns proprietários. Neste contexto, uma proposta centrada nas vinhas abandonadas revela a preocupação dos legisladores em evitar que as parcelas sem utilização fragilizem o tecido agrícola envolvente.
Se os legisladores derem seguimento ao projeto, o debate deverá centrar-se nos limites da intervenção das autoridades públicas quando terrenos vitícolas privados ficam por cultivar e na forma de equilibrar essa intervenção com os direitos de propriedade. Poderão também surgir questões práticas sobre a fiscalização, a definição de abandono e a dimensão de eventuais novas obrigações para as propriedades vizinhas ao abrigo das servidões agrícolas propostas.
Para já, o avanço imediato é processual, mas significativo: o Parlamento francês recebeu formalmente um projeto de lei que coloca a preservação das vinhas e os poderes regulamentares locais na agenda política. Nas regiões produtoras de vinho, poderá ser o início de um debate mais amplo sobre a forma como França protege terrenos centrais para um dos seus mais importantes setores de bebidas.