Rússia propõe tarifa de 5 euros por litro sobre cerveja e bebidas espirituosas importadas
A medida, em discussão no âmbito do orçamento, visaria o álcool de países que Moscovo classifica como não amigáveis, caso seja aprovada pelos legisladores
sábado, 17 de outubro de 2026
O Ministério das Finanças da Rússia propôs um forte aumento das tarifas de importação sobre cerveja e bebidas espirituosas provenientes de países que Moscovo classifica como «não amigáveis». A medida elevaria o direito aduaneiro para 5 euros por litro, enquanto os legisladores debatem o quadro do orçamento federal para 2027 a 2029.
A Brauwelt International noticiou a proposta na sexta-feira, citando uma notícia anterior da Interfax, de 29 de setembro. Ao abrigo do plano, a tarifa mais elevada corresponderia também a 500 euros por hectolitro. A medida ainda não foi aprovada.
A proposta está ligada às atuais discussões orçamentais na Duma Estatal, onde as autoridades estão a analisar as linhas gerais do projeto de plano federal de despesas da Rússia para o período de 2027 a 2029. Nesta fase, o aumento da tarifa faz parte de uma proposta ministerial, e não de uma decisão política definitiva, pelo que ainda poderá ser revisto, limitado ou rejeitado à medida que o processo orçamental avança.
Segundo a notícia, na prática, a nova tarifa abrangeria as importações de bebidas alcoólicas provenientes de quase todos os países que não integram a União Económica Eurasiática. Este bloco regional inclui cinco Estados pós-soviéticos e confere aos seus membros um estatuto comercial diferente do dos países que a Rússia colocou na categoria de «não amigáveis». Na prática, a proposta abrangeria uma grande parte da cerveja e das bebidas espirituosas importadas da Europa e de outros fornecedores de fora da união e vendidas no mercado russo.
As autoridades russas têm usado a designação «não amigáveis» para países que impuseram sanções ou adotaram outras medidas restritivas contra Moscovo. Em termos comerciais, essa classificação tornou-se um instrumento importante para definir o acesso ao mercado, os custos e o tratamento aduaneiro de diversos bens importados. O álcool parece agora integrar essa tendência mais ampla.
Para cervejeiros, destiladores, importadores e distribuidores, a dimensão do aumento proposto é particularmente significativa. Uma tarifa de 5 euros por litro acrescentaria um custo substancial aos produtos importados antes de estes chegarem às prateleiras do comércio grossista ou retalhista. Consoante a categoria do produto, o preço e a estrutura de transporte, isso poderia tornar algumas cervejas e bebidas espirituosas estrangeiras menos competitivas na Rússia ou obrigar os fornecedores a absorver parte do custo adicional através de margens mais baixas.
A questão é relevante para o setor das bebidas muito para além do mercado interno russo. Os cervejeiros europeus e outros produtores de álcool que continuam a exportar para a Rússia poderão ter de rever os preços, os volumes e o posicionamento das marcas, caso a proposta se transforme em lei. Algumas empresas poderão concluir que deixa de ser comercialmente viável exportar determinados produtos, enquanto outras poderão tentar manter a sua presença no mercado apostando em marcas de preço mais elevado, capazes de absorver melhor o encargo adicional. Os importadores e parceiros locais também terão de decidir se repercutem o aumento dos custos nos consumidores, renegociam contratos ou reduzem os seus portefólios.
A medida poderá também alterar a concorrência na Rússia. Direitos aduaneiros mais elevados sobre cerveja e bebidas espirituosas importadas tenderiam a favorecer, pelo menos em termos de preço, os produtores nacionais e os fornecedores de países integrados na União Económica Eurasiática. A eventual tradução desse efeito em ganhos duradouros de quota de mercado dependerá da procura dos consumidores, da fidelidade às marcas e da capacidade dos produtores locais para substituir as ofertas importadas nos diferentes segmentos.
A notícia não indicou quando poderá ser tomada uma decisão definitiva, nem se a tarifa proposta seria aplicada de igual forma a todas as categorias de cerveja e bebidas espirituosas, sem exceções. Também não referiu se estão a ser ponderados períodos de transição, contingentes ou mecanismos aduaneiros distintos. Esses pormenores seriam importantes para as empresas com contratos de fornecimento em vigor ou mercadorias já previstas para expedição para a Rússia.
A proposta surge numa altura em que muitas empresas internacionais de bebidas já tiveram de lidar com um contexto comercial russo mais restritivo e incerto. As mudanças nas políticas de sanções, na logística, nos sistemas de pagamento e nas regras aduaneiras dificultaram o abastecimento do mercado a partir do estrangeiro. Uma tarifa de importação mais elevada acrescentaria outra camada de custos e complexidade, sobretudo para os produtores dependentes de cadeias de abastecimento transfronteiriças e de acordos de distribuição anuais com condições fixas.
Por enquanto, o plano do Ministério das Finanças continua a fazer parte de um debate orçamental, não sendo ainda uma regra comercial definida. Ainda assim, a proposta indica que a Rússia está a ponderar um regime pautal muito mais rigoroso para a cerveja e as bebidas espirituosas importadas de países fora do seu círculo comercial preferencial, e é provável que as empresas que continuam a exportar para o país acompanhem de perto as próximas etapas do processo orçamental.