Produção de vinho em Itália deverá cair 7,22% em 2026, para 41,1 milhões de hectolitros
A seca e os cortes deliberados nos rendimentos reduziram a produção num mercado com 42,6 milhões de hectolitros em existências
quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A produção de vinho e mosto em Itália deverá atingir 41,1 milhões de hectolitros em 2026, menos 7,22% do que no ano anterior, segundo as estimativas de vindima da Comissão Europeia divulgadas na quinta-feira. A quebra corresponde a cerca de 3,2 milhões de hectolitros face ao valor comparável de aproximadamente 44,3 milhões.
A descida surge após uma vindima marcada pela seca em várias zonas e por esforços deliberados para conter a produção. Organizações do setor em Itália tinham instado os produtores a reduzir os rendimentos, de modo a evitar o aumento das elevadas existências por vender. O país continua a registar cerca de 42,6 milhões de hectolitros de vinho em existências, segundo os dados citados por representantes do setor. Assim, uma vindima menor tornou-se tanto uma questão de gestão do mercado como agrícola.
Ao nível da União Europeia, a produção de vinho e mosto está estimada em 137,4 milhões de hectolitros, menos 1,2% do que no ano passado. Isso significa que a colheita total da UE será cerca de 1,67 milhões de hectolitros inferior. A quebra limitada no conjunto do bloco reflete fortes recuperações em Espanha e noutros países produtores, que compensaram grande parte da redução italiana.
Espanha deverá produzir 37,6 milhões de hectolitros, mais 13,4% do que no ano passado, um aumento de cerca de 4,44 milhões de hectolitros. Na Alemanha, prevê-se uma subida de 7,5 milhões para 8 milhões de hectolitros. Portugal deverá passar de 5,9 milhões para 6,6 milhões de hectolitros, e a Roménia, de cerca de 3,4 milhões para 4,4 milhões. Com base nas estimativas da Comissão, Itália mantém-se como o maior produtor da UE em volume, à frente de Espanha.
Os dados da Comissão são preliminares, não definitivos. Este ano, ao contrário do que aconteceu em campanhas anteriores, não foram publicadas as habituais estimativas de vindima do início de setembro. Segundo o relatório original e os comentários do setor, isso deve-se ao risco crescente de a volatilidade meteorológica associada às alterações climáticas provocar diferenças maiores entre as previsões iniciais e os resultados finais. As estimativas feitas durante a campanha tornaram-se, assim, menos fiáveis.
O valor relativo a França na tabela da Comissão tornou-se um exemplo concreto desse problema. A tabela continua a indicar 33,9 milhões de hectolitros para França, mas as autoridades francesas publicaram uma revisão oficial a 7 de outubro, elevando a estimativa da colheita do país para 34,9 milhões de hectolitros. Devido a esta discrepância, o valor francês deve ser encarado com prudência e não é diretamente comparável aos dados dos outros países que constam da tabela atual.
Em Itália, a menor colheita está a ser acompanhada de perto, pois surge após vários anos de pressão sobre o consumo e as existências. A procura interna e externa não tem sido suficiente para absorver as existências atuais ao ritmo pretendido por muitos produtores. Por esse motivo, alguns consórcios de proteção do vinho apelaram à imposição de limites aos rendimentos antes e durante a campanha de 2026. O objetivo era evitar um novo excesso de oferta num mercado que já regista volumes substanciais de vinho por vender.
Lamberto Frescobaldi, presidente da União Italiana do Vinho, afirmou que a colheita estimada, caso se confirme, demonstra que o setor está a tentar equilibrar volume e qualidade. Segundo ele, as perspetivas gerais de qualidade são fortes, apesar de a vindima ser menor do que em alguns anos anteriores de elevada produção. Atribuiu esse resultado à adaptação dos produtores às condições meteorológicas difíceis e à prioridade dada à qualidade das uvas e à sustentabilidade económica da produção.
Este argumento reflete uma preocupação mais ampla no setor vitivinícola italiano. Os produtores não estão apenas a lidar com riscos meteorológicos, como a seca e a maturação irregular. Procuram também proteger os preços e as margens num mercado em que o excesso de oferta pode pressionar ambos. Neste contexto, uma vindima menor pode ajudar a aliviar a pressão sobre a armazenagem e a reduzir a necessidade de vender a preços mais baixos, embora o efeito dependa da produção final e da procura nos próximos meses.
Paolo Castelletti, secretário-geral da União Italiana do Vinho, afirmou que será o mercado a determinar se a vindima de 2026 é suficientemente pequena para restabelecer um melhor equilíbrio. Considerou desejável a redução, tendo em conta as condições atuais, e disse que os produtores esperam agora que os números finais da vindima se mantenham próximos dos dados preliminares. Referiu ainda sinais de melhoria nas exportações para fora da UE, incluindo para os Estados Unidos, onde a organização regista novos ganhos em setembro, depois das recuperações de julho e agosto.
A estimativa italiana destaca-se por conjugar duas pressões que nem sempre evoluem em paralelo. Uma é ambiental, sobretudo a seca. A outra é estratégica: alguns viticultores e consórcios estão a limitar deliberadamente a produção. Esta combinação ajuda a explicar por que motivo a descida de 7,22% não está a ser vista no setor apenas como uma evolução negativa. Para muitos produtores, a questão mais importante este ano é saber se a redução da produção pode aproximar a oferta da procura sem prejudicar a qualidade.
Apesar da descida, os 41,1 milhões de hectolitros previstos para Itália mantêm o país entre os principais produtores de vinho do mundo. Mas a campanha de 2026 também mostra como está a mudar a estrutura do mercado europeu. Os países com colheitas mais fracas em 2025 estão a recuperar, enquanto outros ajustam a produção em resposta às existências, aos preços e aos riscos climáticos. O resultado é uma vindima europeia apenas ligeiramente menor no conjunto, apesar das diferenças acentuadas entre os resultados nacionais dos vários países produtores.
Para os comerciantes e as adegas, os próximos passos dependerão do grau de correspondência entre estas estimativas e os dados finais da vindima, bem como da continuidade da recente melhoria das exportações para fora da UE. A recuperação da produção espanhola, a par dos volumes mais elevados na Alemanha, em Portugal e na Roménia, poderá atenuar algumas preocupações com a oferta no mercado europeu em geral. Em Itália, porém, a atenção continua centrada na possibilidade de uma vindima menor ajudar a reduzir a pressão das elevadas existências atuais, preservando ao mesmo tempo a qualidade das uvas e o valor de mercado.