Espanha perdeu 100 000 hectares de vinha em 15 anos
A seca, as ondas de calor sucessivas e a fraca procura estão a levar os agricultores a abandonar as vinhas tradicionais de sequeiro.
segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Espanha perdeu cerca de 100 000 hectares de vinha nos últimos 15 anos, segundo estimativas arredondadas de organizações do setor vitivinícola e agrícola, numa altura em que a seca, as ondas de calor sucessivas e as condições desfavoráveis do mercado levam os viticultores a abandonar ou a reconfigurar partes do mapa vitícola do país. A redução deixaria Espanha com cerca de 900 000 hectares de vinha atualmente, menos aproximadamente 10% do que no início da década de 2010. Representantes do setor afirmam que cerca de 70% da área perdida, ou aproximadamente 70 000 hectares, correspondia a vinhas de sequeiro, o modelo tradicional que depende da precipitação e não da rega.
Os números, citados pela organização de pequenos agricultores UPA e discutidos por representantes da Federação Espanhola do Vinho, da Organização Interprofissional do Vinho de Espanha e de outras entidades do setor, são estimativas, não uma nova série estatística oficial. Ainda assim, apontam para uma tendência clara numa das maiores áreas de vinha do mundo: a pressão climática está a aumentar, as vindimas começam mais cedo e muitos viticultores questionam se as vinhas mais antigas conseguem continuar a ser rentáveis.
Responsáveis do setor e viticultores afirmam que a mudança é visível em grande parte de Espanha. Em algumas regiões, as vindimas, que antes começavam mais perto do final do verão, iniciam-se agora muito mais cedo, na sequência de primaveras quentes e secas e de longas ondas de calor no verão. Enrique Pascual, que dirige a denominação de origem Ribera del Duero, afirmou que a vindima deste ano foi excecionalmente precoce. José Luis Benítez, diretor-geral da Federação Espanhola do Vinho, disse que, nesta campanha, tanto o início como o fim da vindima foram antecipados de forma acentuada.
As organizações agrícolas afirmam que a antecipação da vindima não é um fenómeno pontual. Roberto Ruiz Clavijo, responsável pelo setor do vinho na COAG, disse que, com a subida das temperaturas e o agravamento do stress hídrico, se observam ciclos de crescimento mais curtos e rendimentos mais baixos nas regiões vitivinícolas. Ignacio Huertas, secretário da UPA para a agricultura, afirmou que as vinhas espanholas atravessaram vários anos consecutivos de produção invulgarmente baixa, aumentando a pressão sobre as explorações familiares.
Grande parte desta pressão recai sobre as vinhas de sequeiro, que ocupam a maior parte da área vitícola espanhola e são comuns nas zonas de produção tradicionais. Huertas afirmou que estas vinhas funcionam como aceiros naturais e sustentam o emprego local, uma vez que são frequentemente exploradas por famílias com raízes nas localidades rurais. Quando são abandonadas, a perda não é apenas agrícola. Afeta também o emprego local, a gestão do território e a base económica de muitas aldeias.
As respostas agora em discussão no setor são abrangentes e dispendiosas. Viticultores e adegas estão a ponderar a rega onde a disponibilidade de água e as infraestruturas o permitem, porta-enxertos mais resistentes à seca, alterações na poda, uma melhor gestão dos solos e da cobertura vegetal, bem como a deslocação de algumas plantações para altitudes mais elevadas, onde as temperaturas são mais baixas. Há também um interesse crescente por ferramentas de precisão, como drones para monitorizar a temperatura das videiras e o stress das vinhas, e pela investigação de material vegetal mais resistente ao calor e à escassez de água.
Estas opções têm limitações. Em algumas denominações de origem, os produtores dizem que não podem simplesmente substituir as castas tradicionais sem afetar a identidade dos vinhos protegidos. Pascual afirmou que a Ribera del Duero não pode deixar de ser Ribera del Duero alterando a casta que a define. Nestes casos, os viticultores estão a concentrar-se mais nos sistemas radiculares, na gestão da copa e noutras alterações agronómicas que preservem a casta e aumentem a resiliência.
Benítez afirmou que o setor está a pensar em duas frentes ao mesmo tempo: a adaptação às alterações climáticas e medidas para reduzir o seu impacto. A adaptação inclui sistemas de poda revistos e, quando a geografia o permite, a deslocação das vinhas para zonas mais altas. A mitigação inclui uma utilização mais eficiente da água, sistemas de reutilização e ferramentas de monitorização digital. Segundo Benítez, estes investimentos exigirão apoio das autoridades públicas, uma vez que muitos viticultores e adegas não têm capacidade para os financiar por si só.
Alguns especialistas defendem também que Espanha poderá ter de voltar a apostar em antigas castas locais, anteriormente preteridas por serem menos produtivas, mas que poderão agora oferecer maior resistência ao calor e à seca. Outros afirmam que será necessário dar mais atenção a episódios de geada súbita, que ainda podem atingir as vinhas apesar da subida das temperaturas médias. Na prática, isso implica mais monitorização e intervenção ao longo do ciclo vegetativo.
O stress climático está a atingir o setor ao mesmo tempo que a procura de vinho enfraquece em Espanha e em mercados de exportação importantes, como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha. Responsáveis do setor afirmam que a quebra é especialmente evidente nos vinhos tintos e no consumo corrente de vinhos de preço mais baixo. Fernando Ezquerro, presidente da Organização Interprofissional do Vinho de Espanha, afirmou que toda a cadeia, da produção à comercialização, está a operar num contexto internacional difícil, marcado pela desaceleração do comércio e pela mudança dos hábitos de consumo.
Esta pressão do mercado é relevante porque muitos viticultores dizem que os preços não cobrem o aumento dos custos. As organizações agrícolas apontam para despesas mais elevadas com energia, fertilizantes e outros fatores de produção e exigem uma aplicação mais rigorosa da lei espanhola da cadeia alimentar, para impedir que os produtores vendam abaixo do custo. Para os pequenos viticultores que não engarrafam nem comercializam o próprio vinho, o problema é direto: podem ter uvas ou vinho para vender, mas os compradores oferecem preços que deixam pouca margem para continuar a investir na vinha.
O impacto não é igual para todos. Observadores do setor afirmam que algumas pequenas adegas centradas em vinhos engarrafados de maior valor poderão resistir melhor à quebra do que os operadores de grandes volumes, expostos à menor procura. Mas muitos pequenos proprietários de vinhas, sobretudo os que cultivam terrenos marginais de sequeiro, enfrentam uma escolha mais difícil. Podem investir na rega, na replantação e em novos sistemas de gestão, ou deixar a terra, dar-lhe outras utilizações ou deixar de replantar quando as vinhas velhas são arrancadas.
Paco Berciano, especialista do setor vitivinícola e antigo professor no Basque Culinary Center, afirmou que é cada vez mais difícil justificar vinhas de baixa qualidade num clima mais quente e num mercado em retração. Alertou que, em algumas zonas, há poucas alternativas viáveis quando as vinhas desaparecem, sobretudo em locais onde a vinha tem sido uma das poucas culturas capazes de sobreviver a condições adversas. As organizações do setor afirmam que é por isso que a atual perda de área de vinha está a ser acompanhada de perto: não se trata apenas de uma questão de produção de vinho, mas também da forma como as alterações climáticas estão a transformar o território rural, as decisões de investimento e o futuro da agricultura em vastas zonas de Espanha.