EUA barram importações de whisky canadiano engarrafado
A restrição entrou em vigor pouco depois da meia-noite de 29 de setembro. As remessas a granel ainda podem entrar, protegendo mais as grandes marcas do que os produtores artesanais.
terça-feira, 29 de setembro de 2026

Os Estados Unidos fecharam na terça-feira o seu mercado ao whisky canadiano engarrafado e à maioria das outras bebidas espirituosas canadianas embaladas, uma medida que entrou em vigor pouco depois da meia-noite de 29 de setembro e aumentou de imediato a pressão sobre um setor que depende fortemente dos compradores norte-americanos.
A nova restrição proíbe a importação de produtos destilados canadianos quando chegam já embalados para venda a retalho. As remessas a granel que ainda não foram engarrafadas continuam a ser permitidas, criando uma diferença importante entre os grandes produtores com cadeias de abastecimento flexíveis e as pequenas destilarias que fazem o engarrafamento no país.
A medida surge na sequência do colapso, no mês passado, das negociações comerciais entre o presidente Donald Trump e o primeiro-ministro Mark Carney. Faz parte de uma disputa comercial mais ampla que já produziu novas tarifas e contramedidas de ambos os lados da fronteira desde o início de 2025. Além do álcool canadiano, Washington também avançou contra alguns produtos lácteos canadianos e motociclos.
Para os produtores canadianos de bebidas espirituosas, a exposição ao mercado norte-americano é profunda. A Spirits Canada, grupo nacional do setor, diz que cerca de metade de todas as bebidas espirituosas produzidas no Canadá são exportadas e que 93% dessas exportações têm como destino os Estados Unidos. Com base nesses valores arredondados, cerca de 46,5% da produção canadiana de bebidas espirituosas depende do mercado norte-americano.
Essa dependência deixa agora muitos produtores perante uma perda abrupta de acesso ao seu maior cliente estrangeiro. Espera-se que o impacto seja mais forte nas destilarias pequenas e médias que embalam os seus produtos no Canadá e não têm escala nem capital para deslocar as operações de engarrafamento para além da fronteira.
Em contrapartida, os grandes proprietários multinacionais de marcas importantes de whisky canadiano podem conseguir continuar a servir clientes americanos enviando o destilado a granel e engarrafando-o nos Estados Unidos. Analistas e destiladores dizem que esse caminho pode atenuar o golpe para algumas das maiores empresas, mesmo que não elimine outros possíveis custos tarifários ou aduaneiros.
A divisão já é visível na Nova Escócia. Lauchie MacLean, proprietário da Glenora Distillery, disse que os Estados Unidos representam normalmente cerca de um terço das suas vendas, com compradores em estados como Nova Iorque, Califórnia e Illinois. Esperava enviar um lote de whisky single malt antes de a nova proibição entrar em vigor, mas a encomenda ficou suspensa mais cedo porque o comprador não quis absorver uma tarifa de 50% dos EUA que já tinha sido imposta em 22 de agosto a certas exportações canadianas.
MacLean disse que o whisky continua num tanque no cais, em vez de seguir para sul. O seu caso mostra que alguns exportadores já estavam a perder negócio antes de a nova proibição sobre embalagens fechar formalmente o mercado.
A ação dos EUA também está a atingir produtores canadianos numa altura em que muitos dizem continuar a ser difícil substituir no país as vendas de exportação perdidas. Destiladores, cervejeiros e produtores de vinho argumentam há muito que as próprias regras provinciais do Canadá tornam difícil vender álcool em todo o país. Em muitas províncias, sistemas controlados pelo governo dominam a distribuição de bebidas alcoólicas e o espaço nas prateleiras do retalho. Os produtores dizem que as marcas de fora muitas vezes têm dificuldade em ser listadas, sobretudo quando competem com produtos locais.
John Cote, que dirige a Black Fox Farm and Distillery, no Saskatchewan, esperava beneficiar da vaga de sentimento de “Compre canadiano” que se seguiu à disputa comercial com Washington. Mas disse que conseguir colocar whisky e gin engarrafados nas prateleiras de outras províncias continua caro e lento. Referiu que recentemente vendeu algum whisky num evento no Ontário, mas perdeu dinheiro em cada garrafa depois dos custos administrativos e dos atrasos.
Essas queixas apontam para uma fragilidade mais ampla do mercado interno canadiano, numa altura em que Ottawa tenta reduzir a dependência do país em relação aos Estados Unidos, o seu principal parceiro comercial. Carney prometeu, depois de tomar posse, eliminar as barreiras ao comércio interno, mas o setor do álcool continua a ser um dos exemplos mais claros de quão difícil tem sido esse esforço.
Em julho, nove das 10 províncias canadianas concordaram em permitir que os produtores de bebidas alcoólicas vendam diretamente aos consumidores através das fronteiras provinciais. Os grupos do setor saudaram a medida, mas também disseram que ela não resolvia o problema comercial maior: o acesso às prateleiras das lojas. O envio direto pode ajudar as vendas de nicho e online, mas a maioria dos produtores continua a precisar de presença nos sistemas de retalho provinciais para construir volumes significativos.
Os responsáveis federais dizem que ainda é necessário mais trabalho. Um porta-voz de Dominic LeBlanc, o ministro responsável pelo comércio interno, disse que o governo federal tinha eliminado as suas próprias barreiras e estava a pressionar as províncias a fazer o mesmo. O porta-voz descreveu o acordo de julho como progresso, mas disse que o Canadá ainda tem muito por fazer, sobretudo numa altura em que os Estados Unidos mudam a sua política comercial e impõem novas tarifas sobre bens canadianos.
A política provincial está a complicar esse esforço. No Ontário, a maior província do país, as lojas estatais de bebidas alcoólicas exibiram esta semana cartazes a promover produtos locais no âmbito da campanha “We’re All In on Ontario”. A mensagem marcou uma mudança em relação à promoção anterior “Buy Canadian” e sublinhou como o apoio aos produtos nacionais muitas vezes termina nas fronteiras provinciais.
Representantes do setor dizem que esse padrão prejudica os produtores que tentam construir uma base nacional de clientes. A Wine Growers British Columbia e outros grupos argumentaram que pode ser mais fácil para os canadianos comprar vinho importado da Europa ou da Austrália do que encontrar vinho produzido noutra província canadiana. Os produtores de bebidas espirituosas descrevem um problema semelhante, dizendo que cada província tem as suas próprias regras de listagem, taxas e requisitos de armazenagem.
A nova proibição dos EUA torna essas fricções internas mais dispendiosas. As empresas que perdem acesso aos compradores americanos têm agora mais razões para procurar vendas dentro do Canadá, mas muitas dizem que o mosaico provincial do país as impede de agir rapidamente.
A distinção entre exportações engarrafadas e a granel é central para determinar quem consegue adaptar-se. Grandes empresas que detêm marcas conhecidas como Crown Royal, Canadian Club e J.P. Wiser’s podem ter a capacidade de enviar destilado não engarrafado para sul e embalá-lo nos Estados Unidos. Os pequenos destiladores artesanais normalmente não têm essa possibilidade. A maioria engarrafa internamente ou recorre a instalações locais, ficando na prática excluída do mercado americano ao abrigo da nova regra.
Isso coloca os produtores independentes numa posição difícil. Enfrentam perspetivas de exportação mais fracas, capacidade limitada para reorganizar a produção e um mercado interno onde as regras continuam fragmentadas. Para alguns, o resultado não é apenas perda de receita, mas também um fosso crescente entre os apelos públicos para apoiar os produtos canadianos e a estrutura real do mercado.
MacLean disse que esse fosso é agora visível em tempo real na Glenora, onde a encomenda de single malt por enviar continua no local depois de o comprador recuar perante a tarifa anterior de 50% e antes de entrar em vigor a nova proibição dos EUA à importação de bebidas espirituosas canadianas embaladas.