As vendas de Cognac caíram 90 milhões de garrafas depois de as tarifas apertarem os produtores franceses
As encomendas da China e dos Estados Unidos enfraqueceram num setor que exporta 98% da sua produção para fora da União Europeia
segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Os produtores de Cognac no sudoeste de França enfrentam uma forte quebra nas vendas depois de dois anos de tensões comerciais com a China e os Estados Unidos, deixando um dos setores de bebidas mais dependentes das exportações em França pressionado por uma procura mais fraca e por uma colheita de 2026 menor.
Segundo números citados pela Euronews a partir de responsáveis do setor, as vendas de Cognac caíram de cerca de 230 milhões de garrafas em 2023 para 140 milhões de garrafas agora, uma descida de 90 milhões de garrafas, ou 39,1%. O relatório não especificou o período exato abrangido pela cifra de 140 milhões de garrafas, nem identificou uma divulgação estatística principal para essa comparação. Ainda assim, o declínio descrito pelo setor aponta para uma contração acentuada num setor que envia quase toda a produção para o exterior.
O setor do Cognac diz que 98% da produção é exportada para fora da União Europeia. A China representa cerca de 25% das exportações e é o segundo maior mercado depois dos Estados Unidos, segundo o organismo comercial do setor. O mercado norte-americano representa aproximadamente metade das exportações, tornando o setor altamente exposto a litígios comerciais em ambos os lados.
Essa dependência tornou-se um problema central para os produtores ao longo do rio Charente, a única região autorizada a produzir Cognac ao abrigo das regras da denominação francesa. Viticultores e casas comerciais dizem que as encomendas foram cortadas depois de importadores e distribuidores tanto na China como nos Estados Unidos terem recuado.
A Euronews noticiou que as quatro maiores casas — Rémy Martin, Hennessy, Martell e Courvoisier — reduziram as compras aos viticultores depois de clientes terem cancelado contratos. A pressão estendeu-se por toda a cadeia de abastecimento regional, afetando não só destiladores e comerciantes, mas também fabricantes de barris, empresas de transporte, empreiteiros agrícolas e fornecedores de equipamentos. O setor sustenta cerca de 70.000 empregos diretos e indiretos em França, segundo números citados no relatório.
Responsáveis do setor dizem que o primeiro grande golpe veio da China, na sequência do litígio comercial sobre veículos elétricos entre Bruxelas e Pequim. França esteve entre os mais firmes apoiantes de uma ação europeia contra as importações chinesas de veículos elétricos. Depois que a UE avançou com tarifas sobre os VE chineses, Pequim respondeu visando o brandy europeu.
A China impôs em 2024 direitos provisórios até 34,8% sobre o brandy europeu, poucos dias depois de a UE ter imposto tarifas até 35,3% sobre os VE chineses. A China acabou por confirmar as suas medidas, mas isentou os principais produtores de Cognac que concordaram em vender acima de preços mínimos não divulgados. Nessa altura, porém, os produtores dizem que o dano já estava feito no mercado.
Raphaël Delpech, diretor do Bureau National Interprofessionnel du Cognac, ou BNIC, disse à Euronews que o Cognac se tinha tornado “dano colateral” num conflito comercial mais amplo. Disse que os consumidores e distribuidores chineses se afastaram do produto depois de este ter sido publicamente associado à ação comercial europeia contra a China. No seu relato, o problema não se limitou apenas às tarifas. Disse que os importadores deixaram de encomendar e que os retalhistas reduziram o espaço nas prateleiras destinado ao Cognac.
O setor voltou então a ser atingido nos Estados Unidos. Durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, os EUA já tinham imposto tarifas sobre o Cognac francês no âmbito do litígio Boeing-Airbus, antes de esses direitos terem sido posteriormente suspensos sob a presidência de Joe Biden. Uma nova vaga de tarifas norte-americanas surgiu depois de Trump regressar à Casa Branca e anunciar medidas abrangentes sobre os parceiros comerciais em abril de 2025.
Em julho, a UE e os Estados Unidos chegaram a um acordo em Turnberry, na Escócia, que fixou uma tarifa de 15% sobre a maioria das exportações europeias para os EUA, incluindo o Cognac. Os grupos europeus do vinho e das bebidas espirituosas têm desde então feito lóbi por isenções, mas o Cognac continua abrangido. O setor diz que a incerteza se somou à quebra de compras nos EUA, onde a inflação já fez subir os preços para o consumidor.
Delpech disse à Euronews que o ambiente tarifário criou ansiedade entre os importadores norte-americanos, que em muitos casos optaram por mudar para produtos considerados menos arriscados. As autoridades francesas e os representantes do setor têm continuado a pressionar Bruxelas e Washington por alívio, mas há poucos sinais de um avanço para o Cognac.
O contraste com outras bebidas espirituosas aumentou a frustração em França. O Reino Unido conseguiu em maio a eliminação das tarifas norte-americanas sobre o whisky, e o whiskey irlandês recebeu tratamento semelhante em meados de setembro. O Cognac francês, no entanto, continua sujeito à tarifa de 15%.
A pressão comercial está a surgir ao mesmo tempo que uma colheita de 2026 mais fraca. Na região do Cognac, alguns produtores dizem que a seca reduziu o valor económico da colheita deste ano. Matthieu Augier, viticultor em Gondeville, disse à Euronews que espera uma redução de 30% a 40% no retorno económico da sua colheita de 2026, face a um ano normal. Essa estimativa foi dada por um produtor e descrita em termos económicos, e não como uma previsão regional oficial do volume da colheita.
Ainda assim, a colheita mais pequena pode limitar o excesso de oferta de curto prazo num mercado onde a procura caiu. Augier disse à Euronews que a natureza estava, na prática, a ajudar a regular os excedentes após a quebra do mercado. Para os produtores, porém, trata-se de um fraco consolo. A menor produção não resolve a perda de mercados de exportação e reduz o rendimento num período já difícil.
Para se adaptar a uma procura mais fraca, o setor lançou dois regimes de arranque de vinhas com apoio financeiro. Um é permanente e paga aos produtores para arrancarem as vinhas de forma definitiva. O outro é temporário e impede a replantação durante cinco anos, permitindo aos produtores manter a sua terra no sistema. A adesão à opção permanente tem sido, até agora, limitada. A Euronews noticiou que os pedidos cobriam apenas 560 hectares dos 96.000 hectares da área da denominação de Cognac.
Essa resposta sugere que muitos produtores continuam relutantes em reduzir vinhas plantadas como investimentos de longo prazo. As vinhas na região são muitas vezes património familiar transmitido ao longo de gerações, e reduzi-las pode significar diminuir a capacidade de produção futura num negócio construído ao longo de décadas.
O litígio tornou-se também uma questão política em França e em Bruxelas. Responsáveis do setor têm argumentado que, se a UE adotar medidas comerciais que desencadeiem retaliação contra setores sem relação direta, o bloco deve prestar um apoio mais forte às indústrias que suportam o custo. O presidente francês Emmanuel Macron visitou a região várias vezes e prometeu compensações aos viticultores, segundo a Euronews, mas o relatório disse que esse apoio ainda não chegou.
Eric Sargiacomo, eurodeputado francês e vice-presidente do intergrupo do Parlamento para vinhos e bebidas espirituosas, disse à Euronews que o Cognac se tinha tornado um caso de teste para a Europa. Disse que a crise estava a suscitar dúvidas mais amplas entre os setores agrícolas sobre se a UE consegue protegê-los quando sofrem retaliação ligada a acordos de comércio livre, medidas anti-dumping ou tarifas externas.
Por agora, as perspetivas do setor continuam tão dependentes da política externa como da agricultura. Os produtores dizem que qualquer recuperação significativa deverá depender primeiro do mercado dos EUA, onde continuam a procurar alívio da tarifa de 15%, enquanto uma recuperação na China poderá demorar mais devido aos danos políticos deixados pelo litígio do brandy.