Proibição de importações nos EUA ameaça mercado-chave para o vinho canadiano a 29 de setembro
Uma subida de 45% nas vendas internas oferece apenas alívio limitado às adegas que dependem da procura dos EUA por vinho de gelo, que representa 60% das exportações.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026

As adegas canadianas estão a registar vendas mais fortes no mercado interno, à medida que os consumidores compram mais garrafas nacionais, mas o setor diz que essa recuperação dificilmente compensará totalmente a ameaça de novas restrições comerciais dos EUA, que poderão perturbar fortemente as exportações até ao final do mês.
A Wine Growers Canada disse que as vendas de vinho no mercado interno subiram 45% desde que as tarifas entraram em vigor, uma mudança que o grupo setorial vê como prova de que os consumidores escolherão produtos canadianos quando estes forem fáceis de encontrar nas lojas. Dan Paszkowski, presidente do grupo, disse que os ganhos recentes mostram que há margem para os produtores locais crescerem no seu mercado doméstico, onde as adegas canadianas ainda representam apenas cerca de 30% das vendas de vinho.
A melhoria da procura interna surge quando os produtores enfrentam um desafio mais sério nos Estados Unidos, o seu principal mercado de exportação. Paszkowski disse que o Ontário produz 90% do vinho canadiano enviado para sul da fronteira. Descreveu a tarifa norte-americana de 50% sobre os produtos afetados como um grande obstáculo às vendas e disse que as ordens executivas assinadas em 8 de setembro estão prestes a bloquear as importações de bebidas alcoólicas canadianas a partir de 29 de setembro.
Se esse calendário se mantiver, as restrições colocarão pressão imediata sobre as adegas do Ontário, afetando também produtores no Vale de Okanagan, na Colúmbia Britânica, e no leste do Quebeque. O risco é especialmente elevado para o vinho de gelo, que a Wine Growers Canada disse representar 60% das exportações canadianas de vinho para os Estados Unidos.
Essa concentração deixa uma das categorias de vinho mais conhecidas do Canadá exposta a preços mais altos e a uma possível perda de espaço nas prateleiras. Paszkowski disse que uma garrafa de vinho de gelo canadiano de US $ 40 enfrentaria uma tarifa de US $ 20 antes de se somarem quaisquer margens do importador, distribuidor ou retalhista. Isso, acrescentou, faria subir o preço final de venda ao público e tornaria o produto muito mais difícil de vender.
As restrições previstas nos EUA poderão também afetar um canal de vendas mais pequeno, mas importante, ligado ao turismo. Paszkowski disse que, se as importações forem proibidas, os visitantes norte-americanos das regiões vinícolas canadianas deixarão de poder levar garrafas canadianas para casa através dos canais comerciais normais. Isso poderá pesar sobre as adegas que dependem da despesa associada às viagens em locais como a região vinícola do Ontário.
O grupo setorial diz que o perigo vai além de uma quebra de curto prazo nos embarques. Paszkowski disse que mesmo uma interrupção temporária do acesso ao mercado norte-americano poderia demorar anos a ser reparada, porque as adegas teriam de reconstruir relações com importadores, distribuidores e retalhistas, ao mesmo tempo que restabeleciam o reconhecimento junto dos consumidores. Para os produtores que passaram anos a desenvolver notoriedade da marca nos Estados Unidos, perder essa posição, ainda que por pouco tempo, poderia sair caro.
Os dados do principal retalhista de bebidas alcoólicas do Ontário apontam na mesma direção das alegações do setor sobre as vendas internas. A Liquor Control Board of Ontario disse que as vendas de vinho do Ontário subiram 44% entre 1 de abril de 2025 e junho de 2026. A LCBO também anunciou uma campanha de marketing mais ampla, “We’re all in on Ontario”, destinada a dar maior visibilidade aos produtos locais.
Essa procura interna mais forte pode ajudar algumas adegas a redirecionar stocks que, de outro modo, teriam ido para mercados de exportação. Ainda assim, o mercado local não substitui totalmente o valor da procura dos EUA, especialmente para produtos como o vinho de gelo, mais orientados para a exportação. Responsáveis do setor dizem que os recentes ganhos no mercado interno devem ser vistos como um amortecedor, não como um substituto para o comércio transfronteiriço.
A disputa também importa para além das adegas, porque as tarifas e uma possível proibição de importações podem alterar a forma como as bebidas alcoólicas circulam entre o Canadá e os Estados Unidos. Na prática, qualquer perturbação nos fluxos de vinho pode obrigar produtores, importadores e retalhistas a ajustar o aprovisionamento, o espaço nas prateleiras e as redes de distribuição. A pressão é provável que seja mais visível nas categorias premium, como o vinho de gelo, mas a mudança também poderá influenciar o mercado mais amplo de bebidas se os compradores substituírem o vinho canadiano por alternativas de outras regiões.
A Wine Growers Canada está a pedir mais apoio a Ottawa à medida que a disputa comercial se intensifica. O grupo quer uma extensão do programa federal Wine Sector Support Program, que está previsto terminar em 2027. Está também a pedir alterações aos impostos especiais de consumo federais, menos barreiras ao comércio entre províncias e mais espaço nas prateleiras para o vinho canadiano nas lojas.
Esses pedidos refletem um desafio de longa data no mercado canadiano. Mesmo com o recente aumento das vendas, os produtores nacionais ainda detêm menos de um terço das vendas totais de vinho no Canadá. Os líderes do setor argumentam que a atual pressão comercial tornou claro o quanto muitas adegas continuam dependentes de decisões políticas fora do seu controlo e o quanto ainda há margem para crescer no mercado interno.
Por agora, o setor está a equilibrar duas tendências bastante diferentes em simultâneo: um apoio mais forte dos consumidores canadianos e um risco crescente de que o acesso ao mercado norte-americano se estreite justamente quando começa a época de vendas de outono. Com o prazo de 29 de setembro a aproximar-se, as adegas que dependem de compradores americanos preparam-se para a possibilidade de que um dos seus canais de exportação mais importantes se torne muito mais difícil de օգտագործar quase de um dia para o outro.